16 Agosto 2009
M. D. Amado
No alto o vento tocava Paganini
Arrastava folhas e papéis
Lambia os rostos dormentes
Desviando lágrimas
Borrando maquiagens
Tons disformes, notas estranhas
Era Paganini ainda, trilha sonora do adeus
Lá em cima eu sentia
Dores/amores/vida
Pulsava sangue coagulado
Veias farsantes
Transitavam vermelhos desbotados
Felicidade falsificada em sorrisos amarelos
Embalagens liquefeitas
Afundava em travesseiros carrascos
Em lençóis e lábios mordidos
Ouvi sentimentos permitidos
Vozes tocaram violinos e trombones
Choro e riso... Música de velório
ContÃnua... Continua (atenção ao acento)
Desprazer de minha triste sonata
Tudo então foi coberto
Qual terá sido a última imagem?
Aos olhos de cada um, sou vexames e lembranças
Sou tolo e sábio, sabe-se lá
Terno preto ou bermuda jeans
De que importa?
Visto a nudez do necrotério
Ainda sinto o frio da gaveta
Arde a dúvida de meu destino
Céu ou inferno são meras representações
Padeço dia após dia na decomposição de meu corpo
Pinto o branco de meus ossos
Do éter ao etéreo
Eterno
Do aroma das rosas ao suor da podridão
Corre o visco negro no canto da boca
Os beijos já não são mais tão quentes
É tempo de contar os segundos
Relembrar os orgasmos
Hoje a chuva veio
Sinto o cheiro da terra molhada
Perfuma o caixão com sombras e caules
Aqui em baixo tudo é tão frio...
E agora ouço apenas as flores do lado cima
* Dedicado à Liartemis, R. Raven e Iam Godoy