Aula de Anatomia
Pedaços de corpos subindo pelo elevador e vindo para as mesas de estudo.
Torços, braços, pernas, cérebros.
Por vezes corpos inteiros, gelados, fedendo a formol.
Lágrimas nos olhos, o formol faz arder os olhos…
Lágrimas nos olhos, a morte faz arder os olhos…
Pedaços de corpos…
O que viram aqueles olhos?
Por onde passaram aquelas mãos?
Aquele coração…
Sofreu? Foi feliz?
Músculo inerte, sem batimentos…
Quando vivo bateu por alguém ou bateu por bater?
Pedaço de carne inútil.
Frio e sem graça.
O formol conserva o corpo, conserva esse coração inútil.
Quem sabe outrora quisesse ter batido mais e mais,
pulsado, jorrando o sangue pelas artérias e veias,
alimentando cada centímetro de tecido do corpo.
Vivido mais.
Sentido mais.
Que palavras saíram dessa boca?
Que sabores experimentou? E dissabores?
Boca morta, lábios frios e sem cor.
Um beijo.
Que gosto tinha seu beijo?
Quantos beijos esses lábios negaram?
Lábios sem vida. Agora beijam a morte.
Sorte?
A pele pálida e sem brilho.
O peito imóvel, aberto…
Aula de anatomia! Não há vida nem morte.
É aula. Simplesmente. Anatomia.
Vida que se aprende com a morte.
Morte que ironiza a vida.
Ironiza o corpo que agora está aqui.
Morto.
Inerte.
Inútil.
Não se decompõe.
Formol, inimigo dos vermes.
Pobre cadáver que nunca se deteriora,
Nunca volta ao pó.
Não tem sossego.
Não tem paz.
Mergulhado ali com tantos outros, anônimos.
Quem foi? O que fez na vida?
Sorriu? Chorou? Matou?
O que faz na morte?
Sorri? Chora? Vive?
Perguntas, pedaços…
Aula de anatomia!
A vida conta os corpos.
O elevador sobe.
Mais um pedaço de carne.
E assim vamos aprendendo.
Aprendemos?
* Parceria de M. D. Amado e Narinha
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