O Abismo (miniconto)
Acordei pensando que seria um dia como outro qualquer, mas ao abrir os olhos me deparei com essa situação inusitada. Minha cama aqui... No alto desse penhasco. Um abismo enorme aos meus pés. Olhei ao redor e nada mais avistei. Era eu, a cama e o abismo. A princípio me desesperei e não entendi se era sonho ou realidade. Mas entendo agora perfeitamente o que é isso. Eu deveria estar me sentindo culpado. Deveria...
Mas não me sinto culpado por fazer o que fiz. Não me arrependo. Faria de novo. Confesso que ainda sinto o gosto do sangue daqueles dois e gostaria de beber mais. O corpo dela não me pareceu mais tão atraente como antes. Não sei se pelo sangue que o cobria ou pelo modo como ficou retorcido.
Deus é testemunha de que eu não era um homem ruim. Sempre busquei o caminho do bem, ou da luz, como diriam os mais religiosos. Tentei usar meus escrúpulos como escudo para não cometer tal ato, mas o ódio... O ódio me tirou a razão. Vi toda minha bondade escorrendo pelo ralo, junto com o que restou da carne dele.
E no fundo esse abismo diante de mim só me faz perceber que tudo que fiz pode ter sido em vão. Mesmo no inferno, eles ainda vão ficar juntos. Sei que vão rir de mim, fazer piada com meu sofrimento. Mas não há de ser nada. Não vou desistir tão fácil. Se dei cabo deles em vida, vou atormentá-los na morte. Só preciso descobrir como saio daqui.
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