A Cor (miniconto)
O clima na cidade é de medo e insegurança por toda parte e a população, em atos isolados, começa a fazer justiça pelas próprias mãos. Uma jovem bem vestida, cabelos loiros e ar de “patricinha” deixa seu celular cair no chão, numa rua não muito movimentada do centro. Um rapaz vê e corre para avisá-la. Ele pega o aparelho no chão e antes mesmo que possa chamar a garota, é derrubado violentamente por dois homens.
O rapaz de pele escura não tem chance sequer de dizer uma palavra. O ódio e a violência impregnada nas “mentes brancas” cuspiam palavras ofensivas acompanhadas de chutes, socos e pauladas. O sangue, vermelho como de qualquer pessoa, escorreu pela calçada, misturado a imundície que fluía de dentro da alma de cada um de seus agressores. Seus olhos arregalados ainda lhe permitiam ver a ignorância estampada naqueles rostos, convictos que estavam fazendo o certo: eliminando o nosso problema social.
Antes de morrer, o jovem estudante que havia acabado de ser admitido como estagiário numa grande empresa multinacional, ainda pode ver quando os seguranças de um shopping abordaram a jovem loira. Ao ouvir que a mocinha de classe média havia roubado o aparelho na loja, os “justiceiros” simplesmente olharam para o corpo no chão, ajeitaram suas roupas e trataram de sair do local.
Sua alma, sem cor, como a de qualquer pessoa, ficou vagando por dias, tentando entender o que tinha acontecido. E a loirinha... Bem, acho que você já sabe o que NÃO aconteceu a ela.
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