Qui Julho 29 , 2010
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Dominantes

Textos - Contos e Prosas

É hora de escrever. Passa da meia noite e minhas mãos estão loucas para criar uma nova história. Os olhos acompanham os movimentos sobre as teclas e vigiam o que está sendo escrito.

Mas a mente... Ah, a mente. Essa viaja numa velocidade incrível. Monta cenários, molda corpos e rostos. Lança idéias e sugestões que percorrem meu corpo até chegar as mãos. Em alguns momentos uma pequena pausa. Um momento de dúvida para continuar a escrita. Dar uma lida no que acabou de ser escrito também é válido para retomar o rumo. Ou quem sabe para mudar a direção.

Mas as minhas mãos praticamente têm vida própria nessas horas. Muitas vezes imagino um destino para aquela personagem e elas, mãos insanas, acabam desenhando outro fim. Trocam a vida pela morte, o amor pelo sofrimento... Esperam, criam, escrevem. Mãos assassinas.

É hora de escrever e elas repetem palavras e frases quando acham que devem. A mente não concorda a princípio, mas depois se entrega. Ajuda. Melhora. Os olhos também gostam de olhar para elas, quando estão em seu frenético balé da escrita. Teclas e mais teclas sendo pressionadas, formando a sua história. Montando o texto que vai fazer sentir medo ou que vai gerar comentários. Que vai agradar ou desagradar. Causar admiração ou indiferença.

E o que importa é que elas continuam me dominando. Nesse momento por exemplo, acho que o texto pode parar por aqui. Pode terminar, pois já não está me agradando muito. Sinto que não está mais fluindo naturalmente, mas elas não querem parar. Não deixam. Insistem que se o texto não está bom, ainda pode melhorar. Dizem que ainda não é hora de parar, pois não estão satisfeitas. Precisam escrever. Se for preciso, escreverão até sangrar as pontas dos dedos.

Agora elas voltaram ao início do texto, lá na segunda frase e fizeram uma correção. Eu falava que meus dedos estavam loucos para escrever, mas elas mudaram a frase. Disseram agora que elas é que estavam loucas para escrever. Estou lhes dizendo. Não tenho mais controle. Elas não me obedecem. Ou será que sim? Pelo que vejo, escrevem o que eu estou pensando e...

“Subindo as escadas ele não enxergava nada além de um ponto luminoso no alto. Tomou aquele ponto como referência para entrar no quarto e por um fim naquela história. Seus passos pesados sobre as tábuas podres chegavam a criar novas rachaduras na velha madeira. A respiração ofegante podia ser ouvida a metros de distância. Quando se postou de frente para a porta, firmou o punho e ergueu o machado. Com a mão esquerda girou a maçaneta e abriu a porta rapidamente...”

Ok... Já entendi. Vocês interrompem quando querem e estão apenas me dando a chance de reclamar, por reclamar, não é isso? Devo então aceitar que meus textos são feitos por vocês e não por mim, correto? Mãos... Devo cortá-las.

“... quando entrou no quarto, viu o escritor debruçado sobre o notebook, tentando apagar o que acabava de escrever. Atravessou por cima da cama e atacou com toda força. Partiu o crânio do homem ao meio. Fácil assim, como se corta uma melancia com um facão. Inacreditável foi ver as duas mãos continuarem a escrever. O texto falava sobre um homem que tinha medo do que escrevia e de uma força oculta que o guiava por entre as palavras e frases soltas de um universo ficcional.”

Escritores... Devemos matá-los.