Nuvens, árvores, ventos e suspiros
Abriu a janela. Notou as nuvens acinzentadas. Sempre gostou do tempo nublado. Dava-lhe mais inspiração para escrever seus contos de terror e seus textos mais melancólicos. Olhou para o lote vago ao lado e assistiu a dança das árvores anunciando que talvez aquele vento trouxesse um pouco de chuva.
Quando ia voltar sua atenção para dentro de casa, seu olhar deixou as dançarinas e se fixou em uma árvore mais próxima de sua janela. Com poucas folhas e o tronco maltratado por um incêndio ocorrido há alguns meses, ela talvez representasse o que estava sentindo. Sua vida sem muitas alegrias eram as poucas folhas que ainda resistiam nos galhos do alto. Como se fosse a esperança, tentando enxergar as coisas mais adiante, mais alto, mais perto do céu. O tronco castigado pelo fogo e pelo tempo seria o retrato do seu romance. Estava ali de pé ainda, tentando sustentar a esperança lá no alto, mas com marcas profundas que não o deixavam se esquecer do que passara até então. O medo e a suspeita de que as coisas continuariam como sempre estiveram nos últimos anos poderia ser visto nos galhos finos, secos e tortos, que pendiam onde deveriam estar novos brotos cheios de vida. Próximos a essa árvore, pequenos tocos. Árvores que não resistiram ou paixões que morreram.
O céu continuava nublado. Ele suspirou pesada e profundamente. Sempre chorou nesses momentos, mas naquela hora ele não queria mais chorar. Queria sorrir. Não conseguiu, mas também não chorou. Dois pardais pousaram em um dos galhos com folhas e pareciam brincar de um lado pro outro. Um passarinho preto, pequeno, que ele não soube identificar, pousou no primeiro galho mais grosso e mais próximo ao chão. Numa estranha dança ou ritual, ele dava pequenos saltos, caindo novamente no mesmo lugar onde estava e ao pousar emitia um som, que se fazia ouvir mesmo com todo o barulho vindo da avenida movimentada ao lado. Parecia estar se exibindo para alguma fêmea. É o que todos querem. Ficar ao lado de alguém. Ou... Quase todos.
Suspirou novamente, dessa vez por sentir certo alívio por estar sozinho naquele momento, pois não queria conversar com ninguém. Pensou inclusive em tirar o telefone do gancho e desligar o celular. Queria pensar. Queria sair, queria voar. Começou a chover. Na verdade uma leve garoa. Se perguntou até quando aquela árvore resistiria. Não tinha como ver suas raízes, mas esperava que elas fossem fortes, como o sentimento que ele trazia no peito e que ainda mantinha suas folhas verdes nos galhos mais altos.
Olhou para o céu nublado, fechou os olhos, pensou nela. Pensou nas dificuldades da sua vida, nos obstáculos do seu romance e pensou na morte. Foi por apenas um segundo, mas ele pensou na velha ceifadora, cortando a árvore, cortando as esperanças. Abriu os olhos. O passarinho preto não estava mais na árvore. Nem tão pouco os dois pardais. Percebeu então que o vento parou sua música e as árvores não mais dançavam. A garoa continuava. Seu romance também. Sua vida idem. Imaginou que a sofrida árvore provavelmente duraria mais do que ele próprio.
Olhou para o notebook sobre a mesa, perto da janela. Teve vontade de escrever. Não sabia por onde começar ou sobre o que dizer. Mas queria espalhar as letras, formar palavras e frases que fizessem sentido ou não. Que o ajudassem a aliviar a pressão dentro do peito.
Então ele escreveu algo sobre nuvens, árvores, ventos, danças, pássaros, amor, vida e morte.
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