Não estou sozinho no escuro
Falta energia há algumas horas. Já anoiteceu e o céu está nublado. Chovia até agora há pouco e ainda ouço os carros passando sobre o asfalto molhado da avenida. As velas acabaram e não me resta outra coisa a não ser me deitar e aproveitar os poucos minutos que ainda me restam de bateria no notebook. Não fosse pela luz da tela, estaria completamente escuro aqui no quarto.
Ouço o som macabro do vento nas arestas da janela. O som dos carros começa a diminuir e estou com uma sensação estranha. Acho que não estou sozinho aqui dentro. Sinto a presença. Percebo que alguém entrou na minha casa. Mas não escutei nenhum barulho de porta, chaves ou mesmo de janela se abrindo. Apenas o vento, que uivou mais forte dessa vez. Escutei também o som de uma latinha rolando na rua. Um carro passa... Tem alguém aqui dentro.
Tento me mexer, mas não consigo. Minhas pernas não se movem. Escrevo para tentar disfarçar uma pequena lasquinha de medo que começo a sentir. A sensação de que alguém se aproxima está aumentando. Parece que está no quarto agora... Meu Deus! Sinto a cama afundando ao meu lado. Como se alguém estivesse deitado comigo... A lasquinha de medo agora é um bom pedaço incômodo de pavor. Ainda não consigo mexer minhas pernas e tenho medo de olhar pro lado. No entanto não consigo eliminar as imagens periféricas. Pelo canto do meu olho, eu vejo uma sombra se aproximando de meu ouvido... Meu Deus!!! Estou com medo! Com muito medo... Não consigo falar ou gritar. Só me resta escrever...
A sombra... Agora começa a tomar forma. Não vou mover meu rosto... Não vou. Não quero! Mas... não adianta. Vejo um olho. A luminosidade da tela do notebook está refletindo no rosto feminino que vejo ao meu lado. Ela tem olhos negros...
Minha Nossa!!! Eu senti... Por Deus, eu juro que senti o toque gelado de um nariz em meu rosto. Estou tremendo... Tenho que voltar várias vezes para corrigir o que escrevo. Meus dedos estão... Meu Deus! A sua mão... ela vai encostar na minha mão. Tem unhas compridas, parecem pintadas de preto... Não, é roxo... Deu pra ver agor...
Ela me tocou... Meu coração está disparado. Estou tremendo cada vez mais, mas não consigo parar de escrever. Socorro... Alguém... Me ajudem... Ela beijou meu rosto. Um beijo frio, muito frio. Me arrepiei por inteiro. Acho que... Acho que vou me virar. Espere... Agora que reparei que... Minha mãe do céu! Não tem nenhum corpo ao meu lado... Na posição em que está o rosto e a mão, tinha que dar para ver o corpo deitado e eu o sinto afundando a cama perto de meus pés também. O que será isso meu Deus?
Vou me virar...
Esse texto estava na tela do computador de um homem encontrado morto em sua casa, por volta das 21:20h do sábado, dia 18 de outubro de 2008. Seu corpo estava completamente seco. Sem água, sem sangue... Nada. Apenas pele e osso. Curiosamente, os olhos estavam arregalados. Os legistas não encontraram nenhuma explicação lógica para o acontecido. O lençol estava com pequenos rasgados, causados muito provavelmente pelas unhas do homem, que deveria estar apavorado no momento em que se deparou com essa... “coisa” descrita por ele. A polícia não encontrou sinais de arrombamento na casa. A porta estava trancada, as janelas fechadas e os cachorros no quintal, quase mortos de fome e sede.
Um fato intrigante é que o homem nos conta que estava sem energia em sua casa e que ele estava utilizando as baterias do notebook. Mas os vizinhos dizem que não faltou luz naquele dia. E quando entramos em seu quarto, o computador estava ligado, usando a tomada como fonte de energia. Conferimos na companhia de luz e não houve registro de chamada ou de reparo na rede elétrica da rua, ou mesmo da casa.
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