Qui Julho 29 , 2010
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Chovia muito naquela noite

Textos - Contos e Prosas

Chovia muito naquela noite e eu estava na sala, lendo o romance “Uma fortuna perigosa”, de Ken Follett, tomando uma taça de vinho tinto barato, sentado confortavelmente em minha poltrona “do papai” com uma coberta sobre as pernas. Estava próximo à janela, um pouco de lado. A cortina estava aberta e os raios às vezes chegavam a assustar um pouco. Relutei em me levantar para fechar as cortinas, pois estava tudo tão aconchegante que parecia um enorme sacrifício sair dali naquele momento, mas os raios continuavam a clarear todo o ambiente e isso me tirava a concentração. Tomei outro gole de vinho e tirei os óculos, colocando-os sobre o livro, já fechado, depois de ter deixado o marcador na página 250.

Quando tirei a coberta de cima das pernas, senti um vento frio vindo da porta do corredor. Ainda descalço, caminhei até a janela para fechar as cortinas, mas antes de puxá-las, olhei instintivamente para fora, como sempre fazemos durante uma chuva forte. O vidro estava muito molhado por fora e um pouco embaçado por dentro, mas foi possível ver um vulto atravessando a rua. Era algo absurdamente grande e forte. Suas formas se confundiam diante das gotas de água que escorriam, fazendo-o parecer um monstro. Não sei dizer ao certo sua altura, mas com certeza era maior que o portão da casa de frente, detalhe que pude notar quando ele terminou de atravessar a rua e parou por uns instantes em frente a esse portão. Tinha uma cabeça enorme, semelhante a de um grande cachorro. Parecia estar farejando algo no ar e olhava para todos os lados até perceber em determinado momento, a minha silhueta na janela. Chegou a dar um passo em minha direção, mas alguma coisa o fez mudar de idéia. Olhou assustado para a rua de baixo e saiu correndo em sentido contrário.

O mais incrível aconteceu em seguida, quando fechei as cortinas e me virei para retornar para minha poltrona. Posso afirmar com absoluta certeza que as janelas estavam trancadas. No entanto assim que me virei, uma das duas partes da janela empurrou a cortina, trazendo um vento frio e muitas gotas de água gelada. E não foi somente isso. Pude ouvir nitidamente um grito de mulher. Alguém pedia socorro e gritava de maneira apavorante no meio daquela chuva. Me aproximei da janela, que agora tinha também um rastro de sangue misturado as gotas de chuva. Os gritos pareciam estar um pouco mais espaçados e abafados. Olhei para fora tentando ver algo, mas não consegui nada além de molhar todo o meu rosto e parte do peito.

Segundos depois, senti uma forte pancada e uma grande dor na cabeça. Alguma coisa me atingiu e agora eu estava caído ali no chão da sala com tudo estava molhado ao meu redor. Água e sangue.

A janela estava quebrada, a cortina rasgada e a polícia estava lá fora. Eu via as luzes e ouvia as vozes de várias pessoas e rádios de comunicação ligados. Com muito esforço, me levantei e voltei para a janela. Pude ver que a chuva havia cessado e lá fora o corpo de mulher jogado sobre o capô de um carro chamava a atenção. Seu corpo bem claro, parcialmente descoberto e manchado de sangue do peito para baixo, estava imóvel. Um policial veio em minha direção. Estava com uma lanterna em uma das mãos e se continuou se aproximando.

Fiz um sinal com a cabeça, mas parece que ele não percebeu. Chamou outro policial e ficaram olhando para minha janela. Novamente acenei com a cabeça, mas nenhum dos dois parece ter visto. Acenei com os braços. Eles então vieram novamente em direção à janela. A luz da lanterna me ofuscava a visão e quando consegui perceber algo além daquele clarão diante de mim, vi os policiais pulando pela janela. Nesse momento tive a impressão que estivessem passando por mim, sem me notar. Eles olharam para o chão molhado e para meu corpo estendido perto da poltrona. Nas minhas mãos eles encontraram um pedaço do vestido daquela mulher. Ao meu lado, o seu coração. E na minha cabeça, um buraco de bala.

Naquela noite, chovia muito...