Qui Julho 29 , 2010
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Naquela Lona

Textos - Contos e Prosas


(Baseado nos personagens e conceitos do conto “Gladius”, de Rita Maria Felix da Silva)

No meio de tanto sangue derramado naquela lona, não restava mais nada a fazer. Vi meu melhor amigo ser completamente aniquilado como se fosse um inofensivo coelho diante de um lince faminto. Vi os pedaços do seu corpo jogados por todo lado, as entranhas e até mesmo sua cabeça, que foi cuidadosamente colocada no chão por seu treinador, depois que este a recebeu como um sádico presente de um rival. Seus olhos ainda meio abertos me fizeram imaginar que seu espírito ainda poderia estar ali, tentando entender o que havia acontecido. Talvez por medo de profanar sua alma, não quis tocar em nada. Preferi conversar com ele como conversávamos sempre. Agachei-me perto de sua cabeça e perguntei se ele ainda estava ali. Para todos os outros na Arena, havia sido só mais uma luta de lobisomens. Para mim fora mais. Eu acabara de perder o que tinha de mais importante na vida, mas decidi não chorar.

Bernardo sonhava com um mundo melhor para nossa espécie, onde todos os lupinos poderiam ser felizes. Um lugar sem humanos.

- Acho que vou sentir muito a sua falta, amigão. Nossas conversas durante a noite no bar, nossas gargalhadas ao fazer piadas com aqueles morcegos super-desenvolvidos... Ah, meu amigo. O que eu posso fazer por você? Diga-me. Nunca fui um bom lutador como você. Não conseguiria nem em cem anos, vingar sua morte lutando com aquele sujeito.

Depois de fazer uma pequena pausa, me toquei que estava falando com um monte de carne jogado ao chão. Se Bernardo estivesse mesmo ali, em espírito, bastava que eu olhasse ao redor. Era ali que ele gostava de ficar desde que viemos do Chile. Estava sempre treinando, sempre conversando com os outros lutadores. Ele amava o que fazia.

Saí da Arena inconformado. Deixei o carro na porta e fui andando para casa. Poucos passos a diante, um sanguinário flertava com aquela que seria mais tarde sua vítima. Ele me olhou e acenou com a cabeça. Retribuí o sinal apenas por educação, ou talvez apenas para evitar qualquer tipo de problema.

A Lua cheia iluminava até mesmo as ruas escuras próximas ao local. Os sanguinários quebravam as lâmpadas para pegarem suas vítimas de surpresa e na maioria das noites não se via praticamente nada. Meu corpo estava todo arrepiado e eu quase não conseguia me controlar. Nessas ocasiões em que o nervosismo ou uma dor emocional tomava conta de minha mente, era difícil manter a transformação sob controle. Não que eu quisesse manter meu anonimato, pois há muito ele já não existia. Muitas criaturas noturnas já sabiam o que eu era, mas essa noite eu gostaria de pensar em tudo que aconteceu e não seria uma boa idéia sair por aí atacando humanos estúpidos. Fui até o bar onde ficávamos depois dos treinos. Não quis me sentar na mesma mesinha velha de sempre. Fiquei na mesa ao lado e olhava para nosso lugar preferido, como se quisesse ver a noite anterior, quando estávamos ali brincando com lindas vampirinhas, provocando-as só por farra. Sabíamos que não seria possível fazer nada com elas. Não seria prudente e nem mesmo sentíamos vontade. Era só diversão. E pra elas também. Lembrei do sorriso no rosto dele quando uma delas disse-lhe que trocaria cinqüenta anos de sua vida por uma noite em que pudesse deixar de ser uma sanguinária, apenas para poder ficar com ele.

Nessa hora, Rick interrompeu minhas lembranças sentando ao meu lado. Com um copo nas mãos, pegou um pouco de vodka da garrafa que estava sobre minha mesa.

- Sabe... Eu nunca vi uma luta tão violenta. Cara, isso foi muito estranho. Não era apenas uma luta. Eu vi ódio nos olhos daquele sujeito. Como se fosse uma vingança... Como se ele realmente quisesse apenas destruir, destruir, destruir... Não entendo por quê. Você tem idéia? Vê algum motivo?

Até então eu não havia percebido esses detalhes. Depois de ouvir aquilo, tentei buscar em minha mente algum motivo, alguma briga na qual ele poderia ter se envolvido, alguma mulher... Sim, poderia ser. Mas... Não... Com certeza ele me contaria. Desde que viemos pra cá, estávamos juntos praticamente todos os dias.

Ele inventou que eu era seu empresário no Chile só para me trazer. Éramos amigos de infância e eu era apaixonado por ele. Claro que ele nunca ficou sabendo disso. Tinha medo que não entendesse e se afastasse. Era melhor tê-lo por perto como amigo, do que longe de mim. Quando Lamartine chegou a nosso país para buscá-lo, achei que iria perdê-lo, mas ele foi logo dizendo que só viria se seu empresário viesse junto. Ah, se Lamartine soubesse que eu sempre fui contra essas lutas e que nunca sequer o empresariei.

- Rick, você viu Bernardo com alguém estranho nos últimos dias?

- Estranho como, Alonzo?

- Ora Rick! Estranho! Que não fosse nosso conhecido. Alguma mulher, por exemplo.

- Não. Nas poucas vezes que me encontrei com ele fora da Arena, ele estava ou com você ou com Lamartine. Mas...

- Mas?

- Não sei se isso tem alguma importância, mas eu vi aquele cara... O treinador do tal Caio, observando Bernardo por muito tempo.

- Mas todos os treinadores observavam Bernardo. Ele lutava muito bem. Nem sei como aquilo foi acontecer daquela maneira. Ele perdeu muito fácil.

- Não, mas ele não estava na Arena. Esse cara estava aqui ontem. Sabe, quando vocês estavam conversando com as vampiras naquela mesa ali. Ele ficou o tempo todo no balcão olhando pra vocês. Não tirava os olhos.

- Poderia ser apenas ansiedade pela luta... Ou não.

 

Não dei muita importância para esse detalhe naquela noite. Saí do bar já meio “alto” e fui para o hotel. Acordei tarde e com fome. Desci para ver se achava algum lugar decente para comer e, claro, naquele bairro medonho seria impossível. Resolvi ir até o centro. Depois de comer quatro suculentos e mal passados bifes de picanha, saí do restaurante e fui andar um pouco para me despedir da cidade. Afinal, por que ficaria ali sem o Bernardo? Voltaria para o Chile no dia seguinte. Mas meu objetivo mudaria logo em seguida, ou pelo menos seria adiado.

Poucos passos depois do restaurante, avistei Caio, o sujeito que acabou com Bernardo. Estava abraçado a uma mulher linda, jovem e aparentemente feliz. Fiquei parado. Não sabia o que fazer ou se deveria fazer alguma coisa. Ele estava se despedindo da garota e eu fiquei apenas olhando. Quando ele deu um último beijo, virou-se e veio em minha direção. Deu uma última olhada para trás e sorriu para ela. Continuou andando e me viu. E pior... Me reconheceu.

- O que está olhando cara? — questionou ele.

Permaneci em silêncio, mas olhando bem dentro dos seus olhos, sem piscar um minuto sequer. Tive que me controlar para não partir pra cima dele, o que na verdade seria suicídio, mesmo estando ele em forma humana.

- Diga. O que está olhando? Você também estava de olho na minha garota? Hein? Por falar nisso, o que está fazendo aqui? — grunhiu Caio.

Continuei em silêncio, apenas pensando por que ele teria dito: “Você também estava de olho na minha garota?”. Teria sido esse o motivo daquele ódio na luta? Bernardo teria mesmo se envolvido com a namorada de Caio? Mas quando, se estávamos quase sempre juntos?

— Olha aqui cara. Volte para o buraco de onde você veio. Acabei com seu amiguinho e você seria ainda mais fácil. Seu amigo só morreu porque se meteu onde não devia. Está me entendendo? — ameaçou ele.

Ficamos em silêncio por um tempo, olhando os olhos um do outro. Então ele trombou propositadamente em meu ombro enquanto continuava seu caminho. Apenas olhei de soslaio para me certificar que ele não me daria um golpe traiçoeiro. Olhei em direção ao prédio de onde os dois haviam saído e a garota ainda estava lá, olhando meio desconfiada para mim. Quando comecei a andar em sua direção, ela entrou no prédio. Resolvi deixar pra lá.

Mas, depois de andar cerca de duas quadras sem rumo e sem ao menos prestar a atenção para onde estava indo, resolvi voltar pelo mesmo caminho. Alguma coisa me dizia para passar novamente em frente ao prédio daquela garota. E ao passar, olhei para a portaria e lá estava ela, sentada no hall do prédio, lendo uma revista. Por que ela estaria ali? Se morava no prédio, por que ainda não havia subido? Minha resposta veio logo em seguida. Um táxi parou do outro lado da rua e buzinou. O porteiro do prédio chamou a garota e ela ergueu a cabeça. Me virei e andei alguns metros, entrando em um bar.

Ela atravessou a rua e abriu a porta do carro. Quando o motorista manobrou para retornar, eles passaram exatamente onde eu estava e pude ver no banco de trás o homem que havia entregado a cabeça de Bernardo nas mãos de Lamartine. Diomedes, o treinador de Caio. Foi naquela hora que decidi que o retorno para casa podia esperar.

Por mais que eu tentasse, não conseguia me lembrar de algum dia em que Bernardo pudesse ter se ausentado tempo suficiente do hotel ou dos treinos, para que tivesse um encontro com aquela garota. A cada volta dos ponteiros daquele relógio horroroso pendurado na parede do meu quarto, eu me convencia mais e mais que aquela história estava muito mal contada.

Durante toda a semana segui os passos de Caio e por vezes o de sua namorada. Míriam. Seu nome me foi revelado pelo imbecil do porteiro que caiu numa conversa boba sobre eu achar que a conhecia do Chile. Disse-lhe que se parecia com uma amiga chamada Constanza e que tinha quase certeza de que era ela. Aí ele desmentiu dizendo que a moça não era chilena e que se chamava Míriam. Humanos tolos. Por essas e por outras que Bernardo os odiava tanto. O tonto do porteiro me disse até mesmo onde ela trabalhava.

Que Diomedes e Miriam estavam tendo um caso às escondidas era óbvio. Caio matara Bernardo injustamente. Mas, como meu amigo foi envolvido nessa história? Os vampiros costumam subestimar uma de nossas mais sutis habilidades: intuição. Aparece de repente como se fosse um estalo e melhora com a idade. Ora, lembrei dos rumores de que Diomedes estava preocupado com o desempenho de seu lutador. Talvez ele precisasse de algo para estimulá-lo. O que seria melhor do que uma mentira suja que pudesse transformar um inocente no amante de Míriam e depois num cadáver?

Trinquei os dentes. Meu ódio por Diomedes começava a crescer. Liguei para Rick e pedi que me encontrasse no bar de sempre. Marquei também com Lamartine, o ex-treinador de Bernardo. Só que combinei com os dois em horários diferentes. Queria primeiro conversar com Rick para saber se eu teria chance de por meu plano em prática com Lamartine. Rick sempre foi pontual e exatamente às 22:30h ele estava lá, sentado a minha espera.

- Como vai Alonzo?

- Vou levando da melhor forma que me é possível. E você?

- Bem. Vou bem. – fez uma pausa, olhou para a garrafa de vinho que estava sobre a mesa e sem tirar os olhos do rótulo, me fez uma pergunta que me deixou um pouco desconsertado na hora.

- Alonzo, veja bem. Eu não tenho nada contra e para mim não faz nenhuma diferença, mas tenho uma curiosidade em relação a você que chega a me incomodar e por isso mesmo sou obrigado a ser um pouco indelicado, mas...

- Pergunte logo Rick. O que quer saber?

- Você... Você e Bernardo... Eram amantes? – perguntou, tirando os olhos da garrafa e olhando diretamente para mim. Em seguida tomou um gole do vinho e ficou esperando a resposta. Confesso que ela demorou a sair, talvez pela surpresa da pergunta, talvez por medo disso atrapalhar meus planos.

- Não.

- Mesmo? Você parecia ser tão, como diria... Tão dedicado a ele. Seu olhar não era só de amigo.

- Devo dizer que estou surpreso com sua percepção, mas não. Não éramos amantes. Na verdade Bernardo não sabia o que eu sentia por ele. Para ele, eu era um grande amigo, talvez mais que isso. Um irmão. Mas eu sempre o amei, desde os tempos de adolescência. Mas por que essa pergunta agora?

- Como disse, apenas curiosidade. Não me importo com isso.

- Bom, já que estamos falando sobre curiosidades... Posso?

- Sim, claro. Direitos iguais, amigo. – sorriu e colocou vinho em outra taça, me oferecendo e fazendo um brinde. Depois de beber um gole, lhe perguntei se era mesmo verdade que alguns sanguinários tinham a capacidade de se mover grudados em paredes e aí foi a vez dele ficar um pouco sem graça.

- Bem... Não sei. Por que eu saberia disso?

- Ora Rick. Não é só você que é um bom observador aqui. Sei muito bem que você não é um lupino. Humanos não sabem da existência da Arena e você não tem o menor jeito de ser uma besta-fera, um demônio e muito menos um Elfo. Restavam poucas opções e notei que quando você bebia conosco, vodka ou outra bebida destilada, não tomava muito. Mas o vinho sempre lhe agradou, talvez como uma forma de disfarçar sua sede por sangue.

- Muito bem Alonzo. Muito bem. Você descobriu meu segredo.

- Só não entendo o motivo de se esconder.

- Porque não concordo com muitas coisas impostas por minha espécie e sempre andei com lupinos. E nem todos aceitam a amizade de um vampiro ou “sanguinário”, como você nos chama.

- Entendo. Mas... E quanto a minha pergunta?

- Por que quer saber isso?

- Porque preciso de sua ajuda para vingar a morte de Bernardo.

Depois de explicar a ele tudo, ou quase tudo que estava planejando, ele se foi para tentar dar início a primeira parte do meu plano. Estando certo de sua ajuda, pude conversar com Lamartine. Logicamente ele riu da minha cara quando pedi que marcasse uma luta entre Caio e eu. Disse-me ainda que tinha mais o que fazer do que virar motivo de piada. Não consegui convencê-lo naquela noite e ele saiu do bar muito alterado. Mas tudo iria mudar quatro noites depois, quando procurei por ele na Arena. Estava assistindo a uma luta de dois demônios quando sentei ao seu lado. Ele baixou a cabeça e resmungou.

- Você não vai desistir dessa idéia?

- Não. Eu preciso que você marque essa luta.

- Se você quer se juntar a Bernardo no inferno, ou seja lá onde for que ele se encontre agora, por que não pega um revólver com uma bala de prata e se mata?

- Porque eu sei que não vou perder essa luta.

- Você só pode estar louco. Que houve? Anda se drogando?

- Lamartine, quando você foi até o Chile para buscar Bernardo, nós depositamos toda nossa confiança em você. Largamos tudo para trás porque acreditamos em tudo que nos prometeu.

- Sim e daí?

- Daí que a única coisa que estou te pedindo de volta é um voto de confiança. Marque essa luta.

- Você é louco! Insano!

Insano ou não, a luta foi marcada para duas semanas após aquele encontro. Eu e Lamartine viramos alvos de brincadeiras. Fomos ridicularizados no bar, na Arena e até nas ruas. Ele tentou me fazer desistir várias vezes. Diomedes passava por nós dando gargalhadas. Ele e Caio.

Na noite da luta, a Arena obviamente estava lotada. O maior espetáculo para todos aqueles sanguinários (não só comuns, havia Lordes também), lupinos, demônios e outras criaturas, seria contar meus pedaços espalhados pelo chão.

Caio estava próximo ao ringue quando eu cheguei. Quando ia passando por ele, me parou com a mão no meu ombro.

- Cara, você tem certeza que quer mesmo continuar com isso? Olha, por mim tudo bem. Vou me divertir muito, mas pra que tudo isso? Seu amigo morreu porque procurou a morte e encontrou nas minhas garras. Esse seu desejo tolo de vingança não vai durar nem vinte segundos. Vá embora cara. Se manda pro Chile.

- Bernardo não procurou pela morte. E ele não a encontrou em suas garras.

- Como não?

- Você vai entender assim que estivermos de pé sobre aquela lona.

- Se você quer assim... – deu de ombros e fez sinal para o juiz, dizendo que estávamos prontos.

Me aproximei de Lamartine.

- Além de perder um lutador naquela noite, você também foi humilhado diante de todos nessa Arena.

- É. E estou sendo novamente. Onde está a novidade?

- Fique de olho naquele que te humilhou e você saberá exatamente o que fazer e na hora certa.

Até mesmo o juiz estava com um sorriso irônico nos lábios. Olhei ao redor e vi a ansiedade nos olhos de todas aquelas criaturas. Elas queriam carnificina. Ao sinal do início da luta, Caio se transformou rapidamente urrando e mostrando seus músculos a todos. Incrédulos. Era essa a melhor definição para aquela platéia naquele momento. Ninguém entendia porque eu não me transformei. Caio, ou melhor, Gladius, voltou-se para mim, urrou e ergueu suas garras, ameaçando um primeiro golpe. Mas, como se estivesse num velho filme de bang-bang, eu saquei rapidamente de dentro da minha jaqueta, um envelope amarelo, já um pouco amassado e estendi em sua direção. Diante do gesto inesperado, ele baixou as garras lentamente e ficou olhando para mim. Eu mesmo fiz questão de abrir o envelope e tirar as fotos que mostravam Miriam em sua forma humana, transando com Diomedes. Lá dentro também havia fotos deles saindo do prédio, passeando de mãos dadas pelo parque, dentro do táxi e uma infinidade de fotos em vários lugares. Mas é claro que fiz questão de deixar à mostra as fotos que Rick tirou da janela do apartamento de Diomedes naquela noite em que nos encontramos no bar.

Nessa hora eu vi Rick saindo de trás de um elfo na platéia. Ele sorriu e fez um sinal com a mão direita, como se estivesse batendo continência. Eu sorri de volta e voltei minha atenção para os olhos de Gladius. Ele olhava atentamente para as fotos, ao mesmo tempo em que se transformava novamente em humano. De onde estava, Diomedes não podia ver o conteúdo do envelope, mas desconfiou de alguma coisa e tentou escapar. Mas Lamartine tinha entendido meu recado e percebeu sua intenção. Segurou-o com firmeza, virou seu braço e em seguida o segurou pelos cabelos, levando-o até Caio.

Diomedes olhou aterrorizado para as fotos:

- Caio, eu posso explicar... Eu não queria me envolver com Míriam, mas isso...

- Cale a boca! E esse tal de Alonzo aqui me disse que você ainda incriminou aquela besta do Bernardo! Você é imundo!

- Não! Eu preciso explicar. Você não pode me matar sem antes me ouvir.

- Eu não vou sujar a Arena com o sangue de um verme traidor como você. Solta ele! – gritou para Lamartine, que obedeceu ao se lembrar do que já vira Caio fazer quando estava furioso.

Confesso que fiquei muito decepcionado quando Caio saiu da Arena empurrando todos que via pela frente. A platéia antes em silêncio, começou a vaiar sem entender ao certo o que estava acontecendo. Os seguranças tiveram muito trabalho naquela noite. Diomedes havia escapado. Entreguei o envelope com as fotos a Lamartine (que ele fizesse o que achasse melhor com elas). Meu plano não tinha dado o resultado que eu queria.

No dia seguinte, já no aeroporto enquanto aguardava o momento do embarque, eu andava pelo saguão quando então pude entender melhor as intenções de Caio na noite anterior. Um jornal estampava a foto do corpo de uma mulher, sem cabeça, na página principal. Em fotos menores, as cabeças de Míriam e Diomedes. A manchete: “Criatura misteriosa ataca na cidade”. A chamada para a reportagem completa no caderno policial ainda dizia:

“Porteiro do prédio onde residia a segunda vítima, afirma ter visto uma criatura peluda, com cerca de dois metros de altura e garras compridas, entrando no prédio momentos antes de ouvir os gritos de pavor da mulher em seu apartamento. Segundo ele, a cabeça do homem encontrada ao lado do corpo da mulher, estava nas mãos da tal criatura. O corpo do homem ainda não foi encontrado pela polícia e as suspeitas caem sobre um desconhecido que teria, previamente, feito perguntas ao porteiro do prédio sobre a mulher decapitada. Ele afirma que o homem tinha sotaque estrangeiro e que teria mencionado ser do Chipre. Leia mais na página 16.”

- Chipre? Mas que idiota!

Logo depois, fui até o portão de embarque. Olhei para trás, para este país pela última vez, e disse para mim mesmo: “Bernardo, onde quer que esteja, espero que agora possa descansar em paz”. No avião, me percebi maculando a sua memória. Havia uma lágrima escorrendo por meu rosto.