Qui Julho 29 , 2010
Font Size
   

Escuridão

Textos - Contos e Prosas



Musgo... Musgo por toda parte. O corredor inteiro cheio de musgo. Tudo escuro, fedorento e com o ar extremamente viciado. Não há sequer um ponto de luz. Não posso precisar a largura desse corredor ou túnel, mas não chega a ser o mesmo que meus braços totalmente abertos. O chão é úmido e apesar de ser coberto, pelo que suponho ser concreto, é muito escorregadio. Por isso mesmo ando com as mãos apoiadas nas paredes. Algumas vezes piso em valas ou buracos cheios de água, se é que posso chamar isso de água. O cheiro é terrível e já vomitei duas vezes enquanto caminhava.

Não estou me lembrando como, nem quando entrei nesse lugar. Nem mesmo sei se estou andando na direção certa. Tive que escolher uma das direções a seguir simplesmente na sorte. Sorte... Estou rindo para não chorar. Como posso falar em sorte estando dentro desse buraco, sem saber pra onde estou indo e pior... Sem saber o que posso encontrar aqui dentro. Nem com todo meu bom humor consigo levar isso na brincadeira. Daqui a pouco vou parar de só ficar pensando e vou começar a falar sozinho. Não tenho idéia de quanto tempo estou aqui, mas minhas pernas já começam a doer. E nada... Nada de diferente. É tudo sempre igual. Alguns metros secos, depois buracos com água ou sei lá o que mais, esse musgo nas paredes e vez ou outra, animais asquerosos que passam sob minhas mãos.

Nem me lembro direito que roupa estou vestindo. Sei que estou de jeans e camiseta de malha, mas não faço idéia da cor. Cueca então, nem pensar. Não lembro de jeito nenhum. Pelo conforto no pisar, mas ao mesmo tempo pelo pequeno incômodo no peito do pé, acredito que estou usando minha bota de couro que uso pra andar nas trilhas. O problema é que ela está encharcada e não vai ser fácil tirar ela do pé.

Ai, ai... Só eu mesmo! Perdido, sem saber o que está acontecendo e pensando em bobagens... Amenidades. Bom, também não adianta ficar desesperado. Não vai me levar a lugar algum. Ughh... Mais uma coisa nojenta em minhas mãos.

Mas o que é isso? Parece... Deixe-me parar de andar pra escutar melhor. Parece alguém chorando. E está perto. Está bem perto!

- Olá! Oláaaa! Quem está ai?

Ninguém responde, mas tem alguém. Tem alg... Uma grade! Uma grade aqui... Deixe-me ver se acho alguma passagem... Nada...

- Olá! Tem alguém ai?

- O que você quer?

- Finalmente... Quero sair daqui. Pode me ajudar?

- Ajudar? – uma breve pausa - Eu é que preciso de ajuda. Estou doente.

- Mas... O que você tem? Onde está você?

Estou tentando perceber algum movimento no fundo desse buraco, mas não consigo. Vou pedir para que ele se aproxime.

- Chegue mais perto! Venha em direção ao som da minha voz.

- Não posso. Estou acorrentado.

- Por que você está preso? E que lugar é esse?

- Estou aqui porque cometi alguns erros... E também estou pagando pelo erro de outra pessoa. Você não reconhece esse lugar?

Ele só pode estar brincando comigo. Tenho até medo de continuar com essa conversa, mas vamos lá:

- Se eu reconheço esse lugar? Como eu poderia se está tudo escuro? Estou andando, sei lá há quanto tempo e não vi nada. Absolutamente nada!

- Você tem certeza?

- Ora, mas é claro que tenho certeza! Não enxergo nada, nem um palmo diante do meu nariz. Não há como... Espere... A não ser que eu esteja...

- Cego?

Oh meu Deus! Será que estou cego? Posso ter passado por alguma saída sem perceber. Talvez esteja andando em círculos. Não, mas eu teria percebido esse homem antes. Será que ele me vê?

- Você pode me ver? Eu estou mesmo cego?

- Não... Ou pelo menos acredito que não. Está realmente tudo muito, muito escuro por aqui.

- Ora, então como quer que eu veja alguma coisa?

- Mas eu não perguntei se você viu algo. Apenas perguntei se você reconhecia esse lugar. Não acho que seja necessário enxergar para reconhecer.

Ele mudou o tom de voz. Parece um pouco sarcástico agora. Será que ele está me enganando? Talvez eu esteja realmente cego e ele pode estar tentando me enganar. Vamos ver até onde vai essa conversa.

- Você é maluco ou algo assim?

- Talvez.

Era só o que me faltava. Perdido nesse lugar horrível e encontro um louco preso, numa situação pior que a minha e dando uma de sabido. Acho que vou seguir meu caminho.

- Olha, eu vou...

- Seguir seu caminho. Eu sei. Entendi.

- Como assim? Eu não disse nada. Eu apenas...

- Pensou.

- Sim, eu só pensei! Mas o que é isso? Quem ou o que é você?

- Você se lembra de quem é?

- Claro que me lembro! Que conversa é essa?

- Lembra mesmo?

Não estou gostando nada disso. Mas uma curiosidade imensa tomou conta de mim agora. Acho que não tenho mais nada a perder aqui nesse lugar. Vou dar corda pra esse louco.

- Eu não sei aonde você quer chegar com essa conversa, mas agora estou curioso. Pois bem, vamos lá. Eu tenho 32 anos, trabalho com distribuição de medicamentos, sou casado, tenho quatro filhos e uma bela e grande casa em... Uma casa... Eu... Eu tenho uma casa em...

- Qual é o seu nome?

- Meu nome é... Eu... Eu não estou me lembrando. Devo ter batido a cabeça quando caí nesse lugar. Meu nome...

Mas o que é isso? Esse homem deve estar me enfeitiçando. Só pode ser isso. Como não consigo lembrar meu próprio nome? Isso está indo longe demais.

- Por que está fazendo isso comigo? É algum tipo de magia? Deixe-me em paz!

- Você não sabe seu nome não é mesmo?

Coisas... Coisas estão passando pela minha mente. Estou vendo um lugar estreito e escuro. Vejo pessoas passando, conversando... Outras caídas no chão. Minha cabeça está rodando... Quem sou eu? Qual é o meu nome? Vejo uma criança. Ela está me dando um dinheiro. O quê... Eu...

- Uma criança...

- E então? Sabe qual é seu nome e o que fazia?

- Fazia? Eu não fazia. Eu faço! Sou comerciante.

- Mas você disse que era distribuidor de medicamentos.

- Então... Eu sou! Eu vendia nas ruas... Meu Deus! Quem sou eu?

- Deus? Você acredita nele?

- Olhe cara, pare logo com isso e diga o que você quer comigo! Por que me trouxe aqui?

- Eu? Mas eu já lhe disse que estou preso aqui. Você me trouxe. E preciso da sua ajuda para sair daqui.

- Eu? Como eu te trouxe se nem mesmo sei onde estou? Deixe-me em paz, já disse!

- Ora... Mas eu não estou te segurando aqui. Vá! Siga seu caminho, se é que tem algum para seguir.

Isso não pode estar acontecendo comigo. Não entendo!

- Desde quando você está aqui?

- Desde que você me mandou pra cá.

- Pare! Já disse! Eu não sei quem é você!

- Claro que não. Você não nos conhecia. Não se importava conosco. Só queria ganhar seu dinheiro não é? Pra que se importar com um bando de idiotas que poderiam morrer a qualquer momento? Você logo encontraria outros trouxas.

- De que você está falando? Nós? Nós quem?

- Se antes você não se importava em saber quem éramos, pra que saber agora? Você não é melhor que nenhum de nós. E não está em situação melhor.

- Ah não, é? Eu estou livre! Andando! Posso continuar procurando uma saída.

- Livre? Você acha mesmo que está livre?

- Pelo menos não estou acorrentado.

- Há há há há... Estamos presos sim meu caro. Mas você também está. Nossas correntes estão presas em você!

- Ahhhhhhhhhhhhh!!!!!!

Que peso horrível nas pernas! O que é isso??? Cai no chão! Estou me sentindo muito pesado e não consigo me erguer.

- Mas o que significa isso? Saiam daqui! Saiam! Aaaaiii....

- O que foi? Reconhece alguma coisa agora? Está vendo alguma coisa?

- Sim, estou vendo vultos agora. Não está mais tão escuro! Mas dói... Dói muito! Parece que tem pelo menos dez pessoas segurando minhas pernas.

- Bem mais que isso meu caro! Bem mais que isso.

- Por favor... Conte-me onde estou e o que está acontecendo.

- Você nos trouxe pra cá. Pense! Pense um pouco mais e você vai se lembrar.

- Esse vultos... Você. Você está mais perto de mim agora. Onde estão as grades?

- As grades apenas representavam o primeiro obstáculo a ser vencido: o reencontro.

- Reencontro?

- Sim, conosco.

- Mas que diabo! Quem são vocês afinal?

- Diabo? Deus? Cada hora você recorre a um deles. Isso não vai nos ajudar. Você precisa se decidir.

- Hã? Sobre o que você está falando. É só um modo de dizer, de xingar, de desabafar...

- Não. As palavras têm força. Se você chama a Deus, você pode ter esperança. Se você grita o diabo, pode esperar o castigo, a cobrança, o pagamento da sua dívida, o sofrimento, a dor... Só você pode nos libertar. Só você pode quebrar essas correntes.

- Mas como?

- Lembrando o que você era. E mais importante: quem você era.

Era? Como assim era? Do que ele está falando? Como dói isso! Não estou conseguindo me mexer e essa sensação de vão arrancar minha perna fora...

- Por que você está me perguntando quem eu era? Eu ainda sou o mesmo. Só não me lembro do meu nome, mas... Mas isso pode ter sido por causa de algum tombo.

- Era! Aqui você não é mais ninguém. Você é merda! É um saco de estrume! E vai ser isso e só isso! Aqui você não existe, você não pensa, você não faz, você não vê. Você não sente nada, a não ser a dor de nos carregar acorrentados às suas pernas por toda a eternidade. A menos que você se lembre quem era e principalmente qual é seu nome, ficaremos juntos pra sempre.

- Estou tentando me lembrar... Estou tentando!

Eu preciso pensar... Beco... Poste... Pessoas caídas... Dinheiro... Luz forte... Policiais... Drogas... Eram drogas e não medicamentos... Eu... Eu vendia drogas! Vendia drogas para crianças também! A Polícia... Meu peito ferido... Um carro da polícia... Uma gaveta no necrotério...

- Traficante... Eu sou um traficante de drogas!

- Quem é você? Diga! Diga seu nome!!! Diga seu nome!!!

- Eu... Eu não me lembro... Não me lembro... EU NÃO ME LEMBROOOOOOOO!!!!!!

E aquele grito se repetiu todos os dias, todas as noites e todas as horas. Aquele grito ecoou pelos corredores do inferno por anos... décadas... séculos... E eu estive lá. Como eu sai? Bem, essa seria uma outra e longa história... Adeus!