O Som da Morte
Morte. Não sinto a vida correndo dentro de mim. Não vejo mais nada, mas ainda consigo escutar. Tudo aconteceu muito rápido. Não houve aviso, ameaças... Nada.
Assim que fui golpeada, percebi que não tinha volta. Escutei um som abafado quando meu corpo foi ao chão. Por alguns instantes me deixaram ali jogada. Foi a última vez que pude sentir gotas de chuva caindo sobre mim e o vento frio me refrescando.
Escutei e senti tudo, quando aqueles homens me tiraram dali. Me arrastaram, carregaram e me jogaram num veículo. Achei que o som daquele motor era a trilha sonora de minha morte, mas estava enganada. Ainda escutaria um som muito pior...
Quando chegamos ao destino que aqueles homens tinham traçado para mim, enquanto novamente me carregavam, escutei quando um deles disse ao outro que já estava cansado daquele tipo de “serviço”, mas que ainda o fazia porque tinha que sustentar os filhos e era a única coisa que sabia fazer na vida. Eu não fui a única então.
Me colocaram sobre uma plataforma. Algum tempo depois percebi que era uma esteira e ai sim, comecei a escutar o que seria a trilha sonora de minha morte. No início um som baixo, constante e semelhante a um pequeno motor. Foi quando senti o impacto brusco dos dentes da serra cortando meu corpo ao meio. O som ficou estridente e muito alto. Eu estava ali ainda, sentindo cada centímetro daquele corte. Pequenos pedaços de meu corpo eram jogados para o alto e caiam sobre o que ainda restava de mim.
Quando tudo terminou, ouvi ao fundo algumas risadas, passos, pessoas conversando... Mas o som da morte nunca mais sairia de meus ouvidos. E isso se repete até hoje, a cada hora, em todos os dias.
Por isso, se algum nativo um dia lhe disser que o espírito da floresta vive dentro de cada árvore, acredite. Pois vive e morre todos os dias.
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