Uma noite escura sem a luz da lua. As grossas gotas de chuva caindo no asfalto refletem a luz dos faróis do carro. Desliguei o som para poder ouvir a música do lado de fora. O som da chuva, o barulho dos pneus passando sobre a pista molhada e por vezes sobre pequenas poças de água. Vez ou outra um relâmpago mais ao longe. Fico contando mentalmente até que o som do trovão possa ser ouvido. Agora... Outro relâmpago.
- 1... 2... 3... 4... 5... – o som – Esse veio mais rápido. Ainda falta muito pra chegar. Estranho, não vejo muitos carros vindo na direção oposta. Não entendo. Uma estrada de pista dupla como essa, deveria significar que tem muito movimento.
A chuva aumentou ainda mais e a visão estava cada vez pior. Diminui a velocidade, mas tive que ficar de olho no retrovisor. Se algum desavisado e maluco viesse correndo atrás de mim e não me visse, poderia acontecer uma tragédia.
- Mas que droga! O ar não está funcionando. Os vidros estão ficando embaçados. Acho que vou ter que abrir um pouco o vidro. Merda! Vai molhar tudo aqui.
MEU DEUS! O que foi isso? Ahhhh não... Que buraco enorme! Mas que droga! Acho que estourou o pneu. Vou ter que encostar aqui mesmo e vou esperar um pouco pra ver se essa chuva diminui. Não vou conseguir trocar esse pneu com essa água toda caindo. Vou só colocar o triângulo e tentar sinalizar o local. O que menos preciso agora é que alguém bata na minha traseira.
Caminhei por alguns metros, me orientando apenas com os clarões momentâneos gerados pelos raios e fui jogando galhos de árvore no acostamento e bem mais atrás armei o triângulo. Quando estava voltando para o carro, tive a sensação de que o triângulo havia caÃdo. Virei para me certificar se realmente tinha acontecido e confirmei minhas suspeitas. Voltei e coloquei-o novamente de pé. Fui até a beira do acostamento para procurar umas pedras para que pudessem servir de apoio. Peguei uma grande e quando estiquei a mão para pegar outra, vi um par de olhos amarelos voltados em minha direção. Tomei um pequeno susto, mas em seguida pensei que poderia ser apenas um roedor ou mesmo um gato escondido na mata. Esses olhos costumam brilhar no escuro, quando uma luz os ilumina. Dei uma pequena risada de mim mesmo e coloquei as pedras no lugar. Mas quando estava voltando pro carro, me dei conta de que os faróis estavam apontando para o lado contrário.
- Ora bolas! Eu estou atrás do carro. Como o farol poderia iluminar aqueles olhos? E não passou nenhum carro!
Confesso que fiquei com um pouco de medo e resolvi apressar os passos até o carro. E foi só então que percebi o que tinha acontecido.
- Ah, que ótimo! Dois pneus estourados. Agora é que não saio daqui tão cedo. Vou ter que esperar passar alguém e pedir uma carona até uma borracharia. Não bastasse isso, esse banco vai ficar fedendo cachorro molhado. Estou encharcado!
Fiquei ali durante 40 minutos e nenhum carro passou em nenhum dos dois sentidos. Como isso poderia acontecer numa estrada tão larga e normalmente muito movimentada?
Estava sentado olhando pro nada quando percebi um movimento na janela lateral do carro, no banco do passageiro. Gelei. Tive medo de olhar pro lado. Escutei um arranhado no vidro e percebi pelo canto dos olhos uma sombra se movimentando. Estava tentando tomar coragem de olhar pro lado quando a sombra desapareceu. Bom, naquele momento eu poderia olhar para o lado sem medo e foi o que fiz. Não vi nada de estranho e inclinei meu corpo em direção à janela para que pudesse procurar algo no chão. Colei meu rosto no vidro tentando enxergar alguma coisa, mas não vi nada de mais a não ser muitas folhas no chão.
Mas antes que eu voltasse... Ela surgiu de repente, do alto e bateu forte no vidro!
-Não! O que... Quem é... - e foi só então que reparei que era um galho quebrado, pendurado na árvore ao lado do carro, que com o movimento do vento, batia no vidro do carro. Sorri aliviado, mas sentindo vergonha de mim mesmo. Que medroso!
Ainda sorrindo, voltei para o meu lugar e avistei bem ao longe uma luz. Fiquei olhando pra ela e percebi que eram faróis vindo na minha direção. Por alguns segundos ela desapareceu. O veÃculo deveria estar passando em alguma parte mais baixa, um morro talvez. Ele surgiu novamente pouco tempo depois e bem mais perto agora. Pisquei os faróis do meu carro, torcendo para que ele entendesse que eu estava com problemas, mas o carro passou por mim.
- Mesmo sendo uma pista dupla e bem larga, ele teria que ter me visto. Não quis parar. Na verdade, eu mesmo não sei se teria coragem de parar.
Olhei pelo retrovisor lateral e vi as luzes de freio daquele carro acendendo e a velocidade diminuindo. Ele ficou parado por um momento. Desliguei e liguei os faróis repetidamente. A luz de ré do carro indicava que ele estava retornando. Passou por mim novamente, pelo outro lado da pista e ficou alguns metros a frente de onde eu me encontrava. Estava provavelmente analisando a situação, olhando em volta antes de tomar alguma decisão.
No meio das duas pistas havia um enorme canteiro de terra batida e um pouco de mato baixo. O carro virou e subiu nesse canteiro. Os faróis ficaram apontados para o meu carro. Desliguei os meus, deixando apenas os faroletes acesos. Mesmo assim, aqueles faróis continuavam sobre meu rosto. Não era possÃvel nem ao menos ver que carro era aquele, mas antes dele entrar no canteiro, quando ainda estava de lado, deu pra ver que era um utilitário. As linhas da caminhonete podiam ser vistas com o pouco de iluminação que se tinha entre os faróis dianteiros e as lanternas traseiras.
Era querer demais que alguém saÃsse naquela chuva toda para ver o que estava se passando comigo, então sai do carro e fui até a porta do motorista. O motor ainda estava ligado e eu pude ouvir aquele ronco caracterÃstico de motores V8. Quando me aproximei dos faróis, pude ver aquela grade cromada e a frente maravilhosa de uma Ford F-100 V8, talvez modelo 1959. Os vidros eram escuros. Bati na janela e fiz sinal para que abaixassem o vidro, mas não houve resposta. O vidro continuou fechado. Então aos berros, para que pudesse ser ouvido em meio aquele barulho de chuva e do ronco grosso do motor, eu pedi ajuda:
- Olá! Obrigado por ter parado. Meu carro... Estourei dois pneus e preciso chegar até um posto de gasolina ou um borracheiro. Você poderia me dar uma carona? Eu posso ir na carroceria para não molhar seu banco.
Se houve resposta, eu não pude ouvir. Só percebi que a porta do passageiro foi aberta e então dei a volta e entrei no carro. Muito molhado e com um pouco de vergonha, bati a porta e me virei para agradecer.
- Não precisava. Eu poderia ir lá na carroceria e...
Ah, como ela era bonita! Na verdade, linda! Nunca havia visto uma mulher tão linda. Ainda que um pouco escuro dentro do carro, que estava com uma luz interna acesa, porém muito fraca, eu consegui ver o quanto aquela mulher era linda. Fiquei sem fala por alguns segundos. Ela sorriu e percebi o quanto estava sendo idiota. Me apresentei, mas ela não disse nada. Apenas engatou a ré e olhou para trás. A luz fraca então iluminou o restante de seu rosto. Que rosto perfeito! Uma boca bonita, bem desenhada e de lábios grossos. Deveria ter no máximo uns 30 anos. Quando voltou seu rosto para frente, olhou para mim e deu um novo sorriso. Sobrancelhas finas emoldurando aqueles olhos brilhantes. Não era possÃvel ter certeza da cor, mas pareciam ser castanhos ou negros. Cabelos ondulados, batendo nos ombros. Ela não disse uma só palavra e seguiu pela estrada. Tentei puxar conversa, dizendo que ela tinha coragem de parar na estrada nessas condições para ajudar um estranho, mas ela não respondia nada. Apenas olhava para mim e voltava sua atenção para a estrada.
A chuva continuava a cair muito forte e mal podÃamos ver as faixas na estrada. Eu já estava sem graça de tanto tentar puxar conversa e não obter respostas e resolvi ficar calado, olhando para fora. Depois de alguns quilômetros, ela entrou em uma estradinha de terra batida. Um pequeno caminho na verdade, forrado de mato e grama, o que nos impedia de atolar. Perguntei onde estávamos indo. Disse que o posto ficava logo depois do trevo que nós vimos antes de entrar nesse caminho. Ela permaneceu calada, mas dessa vez sorriu maliciosamente e passou a mão direita na minha perna, indo do joelho até a virilha. Fiquei curioso e parei de questionar. Ah, esses homens bobos! Ela deve ter pensado assim na hora, pois ela sabia o que estava por acontecer, enquanto eu, na minha estúpida “inocência†achava que ia me dar bem ao final dessa história.
Chegamos a uma casinha no meio da mata, não muito distante da estrada. Por ironia do destino, talvez, agora era possÃvel ver vários carros passando na estrada. Os faróis surgindo na curva abaixo do trevo e sumindo morro acima. Ela desceu da velha Ford e eu a acompanhei.
Ela entrou na casa, olhou para trás e me fez um sinal para que fizesse o mesmo. Era um lugar simples, com apenas um velho e rasgado sofá no que parecia ser o único cômodo da casa. No canto esquerdo, um balde em baixo de uma goteira já estava cheio e entornando água. Na parede, que um dia teria sido branca, havia uma marca quadrada. Alguém deveria ter tirado dali recentemente, um quadro ou um retrato. No fundo desse cômodo uma pequena janela com um dos vidros quebrados. Quando os raios iluminavam o local, era possÃvel ver um mato enorme atrás da casa.
A casa, se é que podÃamos chamá-la dessa forma, era iluminada por dois lampiões. Um pendurado na viga de madeira central e o outro estava sobre um banquinho de madeira, tomado por cupins. Ela me fez um gesto para que eu me sentasse no sofá. Depois foi em direção à pequena janela e ficou olhando para fora. Fiquei na dúvida se deveria me sentar, mas resolvi ver onde isso iria terminar. Ela tinha um corpo incrÃvel, com curvas perfeitas. Estava trajando uma calça jeans, com uma bota e jaqueta de couro. Ela se virou, sorriu novamente e veio em minha direção. Meu coração disparou imediatamente. Ela chegou bem perto de mim e começou a passar as mãos em minhas pernas. Senti sua mão quente sobre minha coxa e indo para a virilha.
Mas de repente, senti uma dor horrÃvel. Ela esmagou meus testÃculos como se fossem, literalmente, ovos. Olhei para baixo e vi garras no lugar de suas mãos. Olhei para seu rosto e menor não foi meu espanto ao constatar que aquele rosto lindo estava se modificando bem ali na minha frente. Aquelas sobrancelhas finas estavam crescendo e engrossando. A boca, antes sensual, havia se transformado em uma enorme boca cheia de dentes afiados e muito grandes. Os olhos agora estavam amarelos e me vieram à lembrança aqueles olhos na beira da estrada. A mão que havia esmagado meus testÃculos agora segurava firme entre minhas pernas e ela levou a outra mão no meu peito, me segurando pela camisa. Fui arremessado de encontro aquela pequena janela.
Agora estou aqui nesse lugar estranho. Vejo a janelinha da casa lá no alto, mas não consigo alcançá-la. Estou num buraco cheio de lama e chove muito aqui dentro. Duas criaturas com a mesma descrição daquela que me atirou aqui estão me olhando agora. Parecem estar conversando, mas só escuto grunhidos.
Me sinto estranho. Meu corpo parece estar ficando leve, mas ao mesmo tempo estou afundando nessa lama. Não consigo falar ou gritar. Não consigo me mexer. Estou afundando, mas me sinto leve. Como pode? A lama está no meu pescoço. Ela apareceu junto das criaturas. Está novamente com aquela aparência linda. Que mulher! Como é linda... Tem lama na minha boca. Queria ter sentido o gosto do seu beijo. Não consigo respirar. Meus olhos vão ser cobertos pela lama. Ela se virou e foi embora. Que corpo! Está tudo escuro agora.
Espere... Estou vendo alguma coisa. Estou na estrada novamente. Não... Mas... Aquele sou eu. Meu corpo está jogado no acostamento, perto do triângulo. Mas eu estou aqui... Como? Vem vindo alguém. O que é aquilo? Os olhos amarelos! Estava comendo minha carne. Ele correu. Acho que os faróis daquele carro o assustaram. A chuva ainda está forte.
Mas... Não pode ser. Aquela velha Ford V8 novamente. Alguém desceu do carro. É ela! Vou até lá e... O que... O que é isso? Não consigo me mover. Tem lama da minha boca e por todo meu corpo. Ela me viu. Sorriu. Ela tem algo nas mãos e veio na minha direção. É um retrato... O meu retrato!
Estou sentado no sofá. Que mulher linda!
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