Uma leve garoa, tÃpica de São Paulo, umedecia seu rosto. O tempo fechado e o vento frio completavam a cena. Sair do presÃdio pela porta da frente era seu objetivo há anos. Esticou os braços à frente de seu corpo, como se quisesse e pudesse tocar a liberdade que acabara de conquistar. Queria senti-la nas pontas dos dedos, como se tocasse as grossas coxas de sua ex-mulher, embora soubesse que elas ainda eram assim apenas em suas lembranças.
Carregando sua culpa embrulhada em um jornal de 1972, seguiu a passos lentos em direção a lugar nenhum. Caminhava sem pressa de chegar, pois seu destino era apenas um ponto de interrogação. E tempo era algo que lhe sobrava há tempos. Passos médios, ritmados e perfeitamente moldados junto a calçada que parecia deslizar sob suas vontades crucificadas. As ruas lhe sorriam deboches de anos perdidos. Tudo era novo ao seu redor. Das roupas aos sons, dos carros ao ar poluÃdo que lhe queimava as narinas. Andou por incontáveis quarteirões cinzas. A garoa virou chuva, que molhou seus parcos cabelos grisalhos e lambeu seus braços flácidos e seus pés frágeis. A camisa colada no corpo trazia impregnados no tecido, os quase quarenta anos de uma justa reclusão. Debaixo do braço, ardia um exemplar da BÃblia, já surrado e com suas orações vencidas. Aceitou Jesus quando ainda lhe faltavam dez anos a cumprir. Aceitou Jesus... Aceitou... Jesus era também seu nome na carteira de identidade. Foi assim que nasceu. Nasceu Jesus.
O remorso havia comido seus últimos anos de vida. Chupou as últimas gotas de sua alcunha: Palito. Era esse seu codinome nos confins de seu passado sórdido. Palito, porque depois de cortar suas vÃtimas em pedaços de um tamanho razoável, suficientes para que pudessem ser mastigados, puxava do bolso uma caixa de palitos e saia pela rua, limpando os dentes e sujando a alma.
Só Jesus salva... Salve-se Jesus.
Entrou num ônibus e partiu sem ver para onde. Poucos minutos depois resolveu descer por onde havia entrado, ignorando eventuais protestos que poderiam vir por parte do motorista ou cobrador. Acordou de um transe castigado pela precoce saudade da prisão. Lá, ele era indivÃduo. Agora, parado em plena Avenida Paulista, ele era um Jesus sem salvação.
Alguns metros a diante, a estação da Consolação abria sua boca convidando-o a esconder sua nova condição de liberdade culpada sob suas escadas rolantes.
Desceu.
O chiado metálico, agudo, anunciou a chegada de mais uma composição do metrô. Portas abertas e vagão vazio — São Paulo teria mudado tanto assim?
O leve balançar de seu corpo era agora a sua única dança. A cada estação, a voz do condutor lhe trazia lembranças daqueles lugares citados em tom de sonolência e má vontade. Suas vÃtimas tomavam seus devidos lugares nos assentos, dispostos numa bizarra ordem cronológica de seus crimes. Ninguém mais desceu. Subiram quinze. Quinze espÃritos que moravam em sua BÃblia de supostos/falsos arrependimentos. Só Jesus liberta... Da prisão dos homens.
Quinze almas, quinze gritos, quinze culpas. Quinze minutos de silêncio emoldurados na vidraça que cuspia imagens escuras de uma coleção de minutos de violência que formaram seu passado. Sombras de um Jesus Palito. Quinze palitos...
O frio então se tornou morno. O morno então se perdeu em Jesus.
Salvo...
A BÃblia amarrotada, manchada de frases decoradas, parecia ampliar a voz sonolenta e carregada de má vontade, do condutor: Próxima estação... Inferno!
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