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Uma voz suave e um vestido vermelho

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Leia escutando a música abaixo

 

Quase ninguém nas mesas. A madrugada já pinta o ar com sua presença, com ares de garoa e seu cheiro de sensualidade. O som do saxofone me faz fechar os olhos e balançar suavemente a cabeça. A fumaça dos cigarros se mistura com as lembranças que carrego de nossos melhores dias. Não precisei de mais que um olhar para o barman... Ele piscou o olho e começou a preparar outro drinque. Entre meus dedos, o terceiro copo vazio dança sobre a mesa, e vejo nas pedras de gelo derretidas, as lágrimas que cansei de derramar por ele. Mas hoje não as quero em minha noite gelada. Sinto um pouco de frio, mas preciso disso. Preciso de meu vestido vermelho, longo e cavado nas costas. É minha libertação, minha alma em tons de pecado e luxúria.

Não posso reclamar da vida que tinha com ele. Sempre foi muito bom para mim e me amou como ninguém antes. Também o amei com toda a intensidade do vermelho do meu batom. Fui feliz ao seu lado enquanto não senti falta da minha própria vida. Enquanto esqueci do meu amor próprio e das vontades que voltaram a me visitar. Se pequei, foi em esconder de mim mesma as fantasias que meu corpo ansiava. Em noites de lua cheia e coração vazio, me sentia molhada e sedenta de algo mais em minha vida.

Mais um drinque...

A música acabando, mas sou de casa... Um sorriso foi suficiente para que ela entendesse... Repetiu a música de tal forma que quase ninguém percebeu. Sorri em agradecimento. Sorri minha culpa, guardada em minhas retinas. Não consigo apagar a imagem daqueles olhos tão cheios de amor, se fechando em horas disfarçadas de segundos. Todos os ponteiros do mundo soaram em meus ouvidos... e ele se foi.

Só pude fazer o que meu corpo pedia. Fui para casa, tomei um banho demorado de espuma, busquei como companhia, meu Trésor da Lâncome e nua atravessei o apartamento com as janelas abertas. Nada mais importava... A lua me pareceu mais próxima e eu me abracei. Voltei para o quarto. O vestido me esperava sobre a cama e não achei necessário nada além dele. Caminhar até aqui me fez bem. Não quis dirigir, pois o cheiro dele ainda estava no carro. Fui olhada... desejada na rua. Excitante.

Não sei o que fazer amanhã, ou depois... Só preciso me deitar com alguém. Beber uma fantasia e lamber meus desejos sacanas. O corpo alguém encontrará. Não preciso me preocupar com isso. O coração está bem guardado em casa... Talvez a diarista o encontre no final de semana, mas até lá, já estarei morta... ou não. Queria ter conseguido arrancar seus olhos que com tanto carinho me desejaram sempre. Mas não tive a habilidade necessária. Foi uma pena terem se deformado tanto.

Ah... O saxofone... Fecho meus olhos.

 

* dedicado à Fabiana Andrade

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