28 Outubro 2010
M. D. Amado
De que vale um tÃtulo, se agora não é somente mais um texto?
Era uma vez, quando as páginas eram todas cinzas e a vida me escorria pelos dedos, um sentimento permeado de sangue e sons. Era uma casa, um lar... a morada de um não sei o quê, que pedia mais e mais... sempre mais. Era uma vez, uma poesia sem linhas, que engolia meus versos soltos pelos cabelos daquela que nunca pude ver. Eram mãos pequenas, que acariciavam meus nomes e devaneios... e os seios... tão sonhados e fartos de quaisquer materializações. Eram apenas seios... daqueles que nos dão calor, amor... a dor. Ar dor...
Era uma vez uma velha casca que nunca se deixou ferida, que nunca se avermelhou de vida. Um amontoado de cores que se tornavam negras. Uma velha casca... um certo jeito de dizer bom dia, quando o dia já virou tarde. Uma certa forma de dizer as coisas... como coisas que devem ser esquecidas no tempo que nunca chega... nem vai chegar... nem nunca chegou... Ar dor...
Era uma vez um velho cinza, por dentro manchado de roxo... um roxo sem vÃsceras, já arrancadas de tuas mãos, calejadas de poemas sem meios, sem freios... Cuidado é uma palavra que em seu dicionário não cabia. Transcorria... sangria... Ar dor...
E uma vez então, feito sangue coagulado, o homem cinza se tornou imprestável. As letras não lhe eram mais amigas e as mãos não mais fingidas. Todo poeta precisa saber fingir a vontade de desistir... fugir da realidade de sua rejeição desencapada, exposta... decomposta em veias inúteis, que carregam nada para o nada de lugar algum. Foi só mais um... Ar dor.
E quando as páginas se tornaram rubras, morreu o poeta, morreu o escritor e as escritas. Morreram as vontades copiadas de um romance machadiano, cantado em meso soprano. A mão pendendo sobre a beirada da mesa, como a mesa pendendo sobre a beirada do abismo... e o abismo pendendo sobre o buraco da alma... agora, enfim a calma.
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