
— Por que me trouxe aqui? Sabe que não quero nada, nem ninguém. Só quero fechar os olhos e não voltar nunca mais. Não sei o porque dessa insistência.
— Escreva infeliz. Apenas escreva. Teu inferno não mudará de cor só porque está aqui. Mas também nada se resolverá se você ficar deitado sob aquelas pedras, apenas pensando no teu sofrimento.
— Se de nada me adianta escrever, por que o faria? Deixe-me quieto em meu canto. O peso daquelas pedras em minhas costas ao menos me faz sentir algo. Algo melhor que a dor dos homens, algo mais intenso que a ausência e o vazio que sinto no peito.
— Escreva! Eu te ordeno! Preciso de tuas escritas... Preciso viver de suas linhas. Pouco me importa tua dor ou teu tom melodramático. Alimento-me de tuas palavras e é isso, e tão somente isso, que me importa no momento.
— Mas eu não me sinto à vontade para escrever. Tudo que eu queria era recuperar o que me foi tirado. Não queria estar aqui. Meu lugar era outro. Era feito de sonhos e esperanças. Minhas escritas se baseiam em meus sentimentos e sempre foi assim, não importando se falava de dor ou de amor. De morte ou vida...
— Pois então escreva sobre toda essa merda ao seu redor... Olhe! Veja quanta inspiração você pode tirar de tudo a sua volta... Deixe de frescura e escreva!
— Eu não posso... Não tenho como separar essa mistura de sentimentos que no fim se transmutam em um grande nada dentro de mim. Não tenho como extrair a raiva e a decepção, separá-las do amor e da carência... Como posso escrever sobre isso, se eu nem sei o que é todo esse amontoado de coisas que me passam pela cabeça?
— Pouco me importa toda essa baboseira de sentimentalismos. Vista-se com meu manto e tire do seu corpo esse frio que te invade o espÃrito.
— Como sabes desse frio? Eu não lhe disse em momento algum.
— O vazio é frio. Negro como a noite sem Lua. Tua mente congela e paralisa diante do medo, da dor, da ausência... Grandes tolices que somente homens como você podem sentir. Tome! Vista...
— Tenho medo do que possa me tornar, vestindo tuas roupas...
— Não são minhas roupas... É meu manto, estúpido idiota. É mais que uma simples roupagem. Vais mudar... Verás o mundo com outros olhos. Aprenderás a ser frio, a ignorar sentimentos que só servem para deixar os homens exatamente como você está se sentindo nesse momento. Vista-se de gelo. Vista-se... Escreverás como nunca. E eu me alimentarei em gozo. Dê-me toda tua essência, jogada em frases desconexas, em histórias malditas e mal ditas. Teus melhores textos surgirão como o mofo que vês no fundo de tua alma.
— Mofo?
— O que acha que é isso que te incomoda o peito, ali, logo atrás do vazio que tanto citas?
— Mas... Como...
— Recordações e traumas meu caro. São seus medos do passado. Mofo. Não é uma palavra bonita, mas é o que tens ai.
— Não sei se devo...
— EU TE ORDENO! Não brinque comigo verme!
— Ou... O que poderá fazer? Matar-me? Gargalho de ti... Estou preso aqui dentro de mim. Matar-me seria um grande favor. Ao menos poderia ver coisas e pessoas que me foram privadas de serem vistas. Viajaria sem rumo e sem pressa. Poderia visitar o passado e reviver somente as coisas boas. Poderia dançar com um antigo amor e flertar com uma nova esperança. Mate-me então...
— Corajoso agora, não? Mas onde estava tua coragem quando veio parar aqui? Quando se entregou a tudo isso? A rejeição não é assim um sentimento tão ruim afinal. Traz ótimos textos e poemas junto com ela. Não acha?
— Tua ironia e sarcasmo não me atingem mais. Pode caçoar de meu sofrimento à vontade. Não me importo. Nada mais importa. Não sei como sair daqui. Preso em meu inferno. Meu corpo é zumbi de minhas frustrações. Segue a vida no básico a ser vivido. O prazer me foi tirado. A confiança foi riscada... Mate-me aqui dentro, te imploro. Faça-me uma lobotomia, lavagem cerebral, qualquer coisa... Arranque de mim essa dor e te darei tuas escritas... Eternas.
— Lamento.
— Lamenta?
— Sim... Lamento. Não posso livrar-te dessa dor.
— Mas não se diz tão poderoso?
— Nunca disse isso. Não sou poderoso... Apenas... Apenas tentava te erguer de alguma forma. Sou teu lado razão e tu sabes que sempre fui um fraco.
— Percebi... Sabia que te conhecia de algum lugar. Nos vemos pouco, não?
— Agora é você que caçoa de mim.
— Que ótimo... Preso dentro de mim, tendo como companheira minha própria e inútil razão. Ora essa... Deixe-me voltar pra debaixo daquelas pedras.
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