— Quem és tu, que pede minha atenção?
— Um de teus filhos, que sofre com tua ação.
— Se és meu filho, não sofres por minhas mãos. Tudo que faço tem seu objetivo e ao contrário do que dizes, muitas e muitas vezes é para aplacar sofrimentos e não criá-los.
Kairos se virou de costas por um momento, enquanto o jovem de vestes simples, quase nu, baixou a cabeça em respeito ao deus. De braços para trás, numa elegante postura corporal, Kairos decidiu ouvir aquele homem. Virou-se novamente para ele e com uma voz paternal, ordenou que continuasse.
— Erga tua cabeça. Diga-me o que o deixa assim.
— O tempo.
— Me parece óbvio, uma vez que me procurou.
— Perdoe-me... Preciso que o tempo passe mais rápido. Carrego comigo uma dor que a cada dia aumenta e pressiona meu peito. Traz com ela a angústia de não ter quem eu tanto quero em meus braços. Tudo que sei é que um dia ela vai chegar, mas “um dia” é algo que faz doer. E tudo depende dessas horas, dias e marcações no calendário. Por isso venho suplicar que acelere o tempo.
O tom paternal deu lugar a revolta de um deus que é questionado por seus atos e ofendido pela impáfia e ousadia de um ser tão insignificante.
— Como ousa questionar minha criação? Como se atreve a querer mudar o destino de várias criaturas, planetas e toda a vida que rege o universo, por causa de uma frescura sentimental? Um capricho egoísta de um verme... Você não passa de um verme diante de tudo que vive. Como pode achar que eu cometeria tal insanidade? Nunca ouviu falar que tudo tem seu tempo? Não é mera filosofia barata. É a verdade criada por mim. Tudo precisa do seu tempo para acontecer.
— Mas então o que eu faço com toda essa dor? Essa angústia, essa vontade de tocá-la, de olhar nos seus olhos e me ver dentro dela? O que tenho que fazer para não sentir essa dor todas as noites quando vou me deitar? A dificuldade momentânea de respirar porque meu peito aperta com a ausência daquela por quem tanto espero?
— Viva. Apenas viva... E destrua suas expectativas. São elas que te fazem sofrer. Não sou eu. Não é o tempo. Não espere tanto. Apenas viva.
Kairos se retirou do grande salão de seu templo, deixando o jovem sem muitas esperanças de tirar do peito toda aquela angústia.
— CORTA!!! Por hoje chega... Ótimo ensaio pessoal! Amanhã no mesmo horário. Estamos indo muito bem.
O jovem ator, depois de trocar de roupas, partiu para casa com a sensação de que tudo aquilo não era só teatro. As palavras de Kairos lhe vestiram bem em sua realidade. Apesar do peso do sorriso forçado em seu rosto, respirou fundo e decidiu viver... Parou na praça onde artistas de rua se apresentavam e abriu um verdadeiro sorriso desta vez, ao ver uma inocente apresentação de bonecos, que faziam piada de todos que estavam em volta.
E se existir mesmo um deus do tempo, ele deve ser primo do deus da ironia, pois nesse exato instante, não houve tempo do sorriso estampado no rosto sequer ser desfeito. A correria de todos naquele momento, deixou para trás o jovem ator, com o riso rasgado no rosto, olhos arregalados e um buraco na cabeça. O assalto na joalheria da esquina lhe rendeu uma bala perdida. Perdida no tempo, na fração de segundos que o marginal se esquivou da mira do segurança.
Seu tempo chegou... Não vai mais sofrer.
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