Eu vejo gatos mortos

Enquanto caminhavam pelo longo corredor do velho casarão, os dois amigos comentavam as estranhas atitudes de Berenice nos últimos dias. Há semanas ela vinha insistindo na idéia de que gatos mortos a cercavam por todos os lados. No início ela mesma ria de tais despropósitos. Mas com o passar dos dias, começou agir de forma estranha, olhando para todos os lados, se escondendo pelos cantos e dizendo frases sem nexo. Léo e Bia, preocupados com o estado emocional de Berenice, queriam convencê-la a procurar ajuda, mas nos últimos dias a pobre amiga não saia de dentro do sótão. Na maior parte do tempo ficava encolhida, enrolada num tapete velho e empoeirado.
O casarão do século XVII abrigara no passado uma família riquíssima que tinha como principal característica, a ostentação. Faziam questão de promover festas sempre que adquiriam algum objeto de arte, móveis novos, carruagens ou mesmo belos animais exóticos que traziam de suas inúmeras viagens ao exterior. As gerações que vieram depois não eram muito diferentes e com o passar do tempo foram perdendo alguns de seus bens para custear e sustentar as luxuosas festas. No final do século XX, já completamente abandonado e deteriorado pela ação do tempo, o casarão se transformou numa pensão para estudantes. Histórias e lendas envolvendo os antigos moradores do local sempre foram uma constante entre os jovens inquilinos. Vultos no corredor, som de taças de cristal durante a madrugada, risadas vindas do porão e até mesmo gritos no meio da noite. Estes e outros fenômenos eram o tema preferido dos universitários quando se encontravam nos botecos, após a aula. No entanto quando voltavam para seus quartos na velha pensão, o medo do desconhecido invadia a mente de praticamente todos eles, incluindo-se aí os mais céticos.
Mas as visões de Berenice eram inéditas. Ao menos pelo que se sabia até então. Gatos mortos andando pelo corredor e pelos jardins nunca tinham sido relatados anteriormente. Com medo do que pensariam os outros amigos a respeito dela, Bia resolveu não contar para ninguém sobre o que estava acontecendo. Ela e Léo levavam comida sempre que podiam e ficavam ao seu lado tentando acalmá-la, sem muito sucesso.
- Eu vejo gatos mortos... Eu vejo gatos mortos... Mas aqui eles não me machucam. Não me machucam. – dizia sempre, com os olhos arregalados e o pavor estampado em suas pupilas.
No final de mais uma tarde de vigilância, o casal deixou Berenice novamente sozinha. No caminho até o jardim dos fundos, conversaram a respeito:
- Léo, temos que fazer alguma coisa. A Berenice tá pirada. Além do mais, ela não pode ficar enfiada nesse sótão para sempre.
- Mas o que podemos fazer? Você não quer pedir ajuda para mais ninguém. Sozinhos não conseguiremos tirá-la de lá. E Bia... – ele parou próximo a porta e disse com um tom abafado na voz – Eu... Eu preciso te contar uma coisa. – olhou para os lados para ter certeza que ninguém poderia ouvi-lo e continuou:
- Eu... Ouvi uma voz hoje quando chegamos ao sótão.
- O que tem isso demais? A pensão está cheia hoje. É sábado. O “zum zum zum” não para.
- Não Bia. Eu escutei uma voz no meu ouvido, enquanto estávamos no porão.
- Ah, por favor, Léo! Você também não! Já me basta uma amiga maluca.
- Maluco? Mas Bia... É isso que você pensa de Berenice? Poxa, ela é nossa melhor amiga.
- Léo, no começo eu achava que ela estava estressada ou deprimida, carente, sei lá. Mas cara... Tem quatro dias que ela não sai do sótão. Não para de falar que vê gatos mortos. Só come o que a gente leva pra ela e mesmo assim, porque a gente insiste. Sem falar no fato de ficar enrolada num tapete velho, mofado e empoeirado. Isso não é coisa de alguém normal, ou é? E agora você me diz que está ouvindo vozes? Ah por favor...
Bia saiu para o jardim deixando para trás o amigo, envergonhado e ainda cismado. Que voz teria sido aquela?
À noite Léo resolveu que ficaria com Berenice. Ia tirar a prova dos nove. Entre um intervalo e outro onde repetia a frase “eu vejo gatos mortos”, a amiga chegou a dizer que as aparições eram mais constantes durante a madrugada. Quando Léo entrou no sótão, Berenice pulou de susto. Não o esperava ali. Mas ao perceber que era o amigo, ela se acalmou e o chamou para ficar ao seu lado.
- Eu não vou me enfiar debaixo desse tapete Berê. Pode esquecer! Fico aqui perto de você, mas não ai debaixo.
- Não diga que não avisei. Ai fora você vai ser alvo fácil para eles.
- Eles quem Berê?
- Os gatos... Os gatos... Eu vejo gatos mortos... Eu vejo...
Léo se acomodou perto de Berenice, mas não tão perto. O cheiro do tapete lhe incomodava bastante. Tentou conversar com ela, mas era impossível. Ela só repetia a mesma frase e ficava olhando para os lados. Nas primeiras horas da noite nada aconteceu e ele acabou pegando no sono.
Pela manhã Léo desceu as escadas correndo à procura de Bia. Nunca havia corrido tanto na vida dele. Seu corpo doía e as feridas e arranhões que se estendiam por toda parte, ardiam como fogo. Virando no corredor, avistou Bia que entrava pela porta que dava para o jardim dos fundos.
- Bia! Bia! – chegou quase atropelando a amiga.
- Minha mãe do céu! O que aconteceu com você? Briga?
- Bia, é verdade! É verdade!
- O que é verdade? Que você brig...
- Bia!!! Me escuta! Eu vi os gatos... Mais do que isso, olha o que eles me fizeram. Eram estranhos, de olhos vermelhos... Alguns pareciam estar em estado de decomposição e outros eram muito estranhos, tinham garras afiadas e...
- PARE! PARE COM ISSO AGORA LÉO! – Gritou Bia, interrompendo o amigo. – Você ficou maluco de vez? No mínimo você se meteu em alguma briga por causa de um rabo de...
- PARE VOCÊ BIA! – agora foi a vez de Léo interromper a tentativa de Bia. – Não está reconhecendo essas marcas? São unhadas de gatos e... Caralho, como isso arde!
Bia olhou para os ferimentos, olhou nos olhos de Léo, suspirou e disse, já virando de costas e voltando para o jardim:
- Minha nossa... Tem alguma coisa na água dessa casa. Eu vou embora daqui, antes que eu fique louca também.
- Mas... Bia... Biaaaa!
Carlos, que esperava por um amigo na porta da sala, olhava assustado para Léo, que ficou com cara de paisagem enquanto Bia sumia atrás das árvores do jardim.
- Ei! Acorda Carlinhos! Se estiver com sono, é melhor nem ir para a quadra. Vamos, estamos atrasados! – Disse-lhe Robson, que acabara de descer as escadas.
- Cara... – ele olhava ora para o amigo, ora para o gato parado na porta dos fundos – Eu podia jurar que vi aquele gato discutindo com o outro que saiu pela porta.
- Você quis dizer brigando né? O bichano tá todo detonado, coitado. A briga deve ter sido feia.
- Não cara... Eu to dizendo que ouvi os dois... Tipo assim... Conversando, saca?
Robson olhou dentro dos olhos de Carlos, como se procurasse vestígios de uso de drogas ou algo semelhante.
- Carlinhos, você tá de sacanagem comigo, ou anda usando drogas?
- É sério cara... Eu ouvi... E também vi os dois conversando.
- Na boa... Eu já ouvi de tudo aqui no casarão, mas gatos que falam é a primeira vez – gargalhou – Anda... Vamos jogar bola!
- Robson... Não é só isso. Eu tenho ouvido gatos miando durante a madrugada, como se estivessem dentro do meu quarto. E quando me levanto para procurá-los, não vejo nenhum por perto. Nem do lado de fora da casa.
- Cara, você está usando tóxico! Sai dessa véio!
Quando Carlinhos ia mandar o amigo ir se foder, uma garota baixinha, pele clara e rosto muito bonito, chegou perto dos dois e interrompeu a conversa.
- Oi! Vocês viram a minha gata por ai? Ela não aparece há cinco dias.
- Qual? A malhada de cinza? – perguntou Robson.
- Não, aquela azul com listras amarelas... Por acaso eu tenho outra gata?
- Opa! Calma aí! Também não precisa responder assim.
- Ah, vá se foder! – deu as costas e saiu pelo corredor gritando - Bereniceeee! Bereniiiiice! Berêeeeee! Caralho de gata dos infernos!
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