Qui Julho 29 , 2010
Font Size
   

Adeus, essas são minhas últimas palavras

Textos - Contos e Prosas

"Às alegrias juntam-se as tristezas,
e o carpinteiro que fabrica as mesas
faz também os caixões do cemitério!..."
Augusto dos Anjos



As palavras de Augusto dos Anjos me vestem muito bem. Seu caimento é tão perfeito, tão suavemente ajustado em mim, que faria inveja nos mais importantes estilistas mundiais. Vivo e caminho sobre essa linha divisória entre a tristeza e alegria. Meus passos ora pisam a dor, ora pisam o alívio no peito. O mesmo sorriso que empresto à alegria empresto à tristeza. Disfarço-o. O humor e a vontade de fazer rir a quem quero bem, maquilam as lágrimas que insistem em brotar do espírito.

Rio. Sorrio. Seco as lágrimas. Aquelas que molham o rosto e saem dos olhos, já não as tenho mais. Dominei-as. O que me deu certo alívio. Mas as verdadeiras lágrimas, da alma, do espírito, essas habitam meu íntimo, vizinhas das gargalhadas. Sou eu. Sou dois. Sou carpinteiro de caixões e de mesas.

Canso. Desisto. Meu último texto. Minhas últimas palavras. Sofro do mal maior. Sofro do vazio. Se me perguntarem se um dia amei, direi que sim. Se me perguntarem se um dia me amaram, direi que talvez. Questione-me sobre momentos felizes e direi que os tive. Se quiser saber sobre momentos tristes, bastaria olhar em meus olhos, retratos de minh´alma. Mas não terá tempo para isso. Tarde demais. Agora os olhos querem se fechar para sempre. Não enxergam mais adiante. Não veem mais motivos para ver, admirar, possuir ou sonhar.

Vou agora desmontar as mesas. Aproveitar sua madeira e com eles construir meu fim. Meu caixão de sentimentos. Vou embora daqui. Despeço-me de você, dele, dela, deles... Não tenho medo do inferno ou do paraíso. Receio apenas que não existam. Ainda não tenho certeza de como partirei. Sangue nunca foi meu forte, embora goste de escrever e descrever cenas em que o mesmo se mostra abundante. Veneno talvez, mas tenho medo de quem meus últimos momentos sejam de dor. Já senti muita dor até agora. Não preciso de mais nenhuma, seja física ou não. Ainda pensarei a respeito, mas não muito. Não quero mudar de ideia. Talvez uma breve dor. Algo que seja rápido.

O caso é que não tenho mais porque ficar aqui. Não tenho mais a quem amar. Não tenho mais quem me ame. Digo isso em relação ao tal sentimento, amor verdadeiro, que agora enxergo como ridículo e arrogante. Pois chegou, invadiu meu peito e mente. Mente/mentiu. Me fez de palhaço – sem ofensas aos circenses – e me tornou escravo de sua empáfia. Prefiro seu irmão, o ódio, pois raramente nos acompanha por toda a vida. Amor de filhos, amor de amigos... Esses eu tenho. Tenho sim, pois como não? Mas eu nasci para amar o maldito. Para ser escravo do arrogante – rio agora de minha estupidez.

Morrer por amor é injusto, é estúpido, é burrice, é covardia... Sei. Eu sei. No entanto nunca fui corajoso, inteligente, justo ou esperto. Vou embora. É fato. Morrerei para todos, inclusive para mim. Em pouco tempo a vida retoma seu curso, se acaso se desviar por algum momento.

Mas ainda penso aqui comigo... Fujo do vazio e no vazio corro o risco de cair. Embora possa me negar a ir. Posso me transformar em mais uma dessas ditas almas penadas e amar meu amor para sempre. Viver para sempre um sonho que nunca se acabará. Ir aonde quiser, quando quiser. Ver tudo que eu quiser ver. Enganarei as mentiras, driblarei as emoções, derrubarei as palavras, que só palavras são.

Por outro lado, talvez seja mais sábio – embora tenha dito que nunca fui muito inteligente - me afastar do maldito amor. Se nessa dimensão ele já machuca, imagine então para onde irei. É... Pensando melhor, afasto-me dele. O afogarei nas límpidas águas do inferno, ou o queimarei nas fascinantes chamas do paraíso – não, não errei. E digo isso apenas para dar um tom poético, pois infernos e paraísos não existem. Sei lá. Talvez sim. Talvez se misturem.

De qualquer forma vou indo. Lembrem-se de mim como alguém que queria ser alguém. Que escreveu pouco, mas com muito sentimento. Que publicou pedaços de seu espírito, tentando apagar as sombras da tristeza. Alguém que tentou ser, mas não foi. Tentou fazer, mas não fez. Tentou participar, mas não lhe foi permitido.

Adeus...

- Deus?! Você está?

E se ELE não existir? Enfim...