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Sombras da Solidão

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Maldita solidão que insiste em me acompanhar por todo lado. Ignora o fato de que tenho alguém... ou melhor, que tinha alguém. Não importa... Ela sempre ignorou. Fingiu não ver que eu era feliz ao lado de outra pessoa. Nas longas horas em que o sono se perdia em meio a tempestade de meus lamentos, a pesada solidão fazia questão de me acompanhar. E agora, que não tenho mais ninguém, ela se faz ainda mais presente. Traz consigo suas amigas, as sombras. Sombras negras, disformes... envolventes.

Sombras que me entorpecem com seu cheiro de nada. Transformam o ar que respiro, tornando-o pesado e escuro. Comprimem meus pulmões, apertam o peito, fazem meus pensamentos viajarem a um mundo de trevas. Ideias de morte. Fuga.

Sombras e mais sombras. Elas envolvem meu corpo, me empurram de um lado para o outro na cama. Vez por outra, sinto que penetram em minha pele, espetam minha alma, torturam meu cérebro. Me enchem de dúvidas, de desconfiança... me lembram das mentiras e das omissões, dos desprezos e da má vontade.

Foi num quarto de hotel que tudo começou. Foi quando elas apareceram pela primeira vez. A velha solidão nos apresentou. Chegaram em um momento de tristeza e saudade. Me mostraram pela primeira vez, que eu não tinha tanta importância quanto eu pensava. Olhava para a cadeira, próxima a porta do quarto e via a solidão sentada, de pernas cruzadas, olhando para mim. E elas, as sombras, ao meu redor, ensaiando um balé macabro ao som de suspiros e lágrimas. Tentei pedir ajuda, mas não fui ouvido. Tentei ouvir a voz que sempre me acalmava, mas ela precisava se calar para mim. Tinha outros ouvidos a visitar. E desde aquela noite, desde aquele final de semana inteiro, a felicidade que eu havia conhecido meses antes, começou a sucumbir diante das sombras. De onde vieram? Quem as mandou?

Hoje, um ano depois, elas ainda me acompanham. Noite após noite, madrugadas a dentro. Me viram na cama, me acordam, lambem meu rosto e fazem questão de me lembrar que não significo tanto assim. Estou aqui em outro quarto, no escuro, encostado na cabeceira de uma cama velha, com um colchão fino e um lençol que não para no lugar. Uma pousada simples, de uma cidadezinha humilde do interior. O som do ventilador de teto sopra em meus ouvidos a lembrança de que a solidão me espreita. Ela está ali, sentada sobre a tampa do vaso sanitário. Não a vejo, mas sinto.

As sombras me chamaram. Insistiram até que eu me levantasse para pegar o notebook. Não quis acender a luz. Não quero ver a solidão. Não quero ver sua cara de deboche, me dizendo que venceu mais uma vez. Maldita. Eu já nem tenho mais lágrimas a chorar. Dias atrás foram consumidas as últimas, bombeadas por palavras rudes e questionamentos os quais nunca poderia imaginar ouvir, de quem ouvi. Talvez, veja bem... talvez... as sombras venham de quem eu achava que poderia confiar a minha vida. Ou talvez não. Elas podem fazer parte de mim. Podem viver dentro de mim e vez por outra são atraídas por aquela filha da puta que se encontra agora de pé, na porta do banheiro, braços cruzados, ombro encostado no marco, um pé apoiado no chão, enquanto o outro, cruzado, apóia as pontas dos dedos próximo ao calcanhar do primeiro. O sarcasmo no seu sorriso... eu sinto. Sei que ela ri da minha infelicidade. Nem a escuridão é capaz de esconder seus malditos dentes brancos.

Em outros tempos eu teria sentido verdadeiro pavor ao perceber ao meu lado, uma sombra sentando-se na beirada da cama. Ela me olha com certo interesse. Lê parte do que escrevo. Pedaços negros de algo que julgo ser sua mão, pousam sobre meu ombro. Sinto sua respiração lenta e suave em meu ouvido direito. É a sombra do esquecimento. Ela tenta inutilmente me acalmar. Sempre me dizendo que amar de verdade não vale a pena. Que tudo não passa de uma grande bobagem criada por poetas e escritores deprimidos – coisa que talvez eu conheça bem. E começo a pensar que ela pode estar carregada de razão. Amor e ódio talvez sejam o mesmo sentimento, visto por ângulos diferentes. Quem sabe, se eu trocar de ângulo, eu passe a ver as sombras como as companheiras ideais? Quem sabe, olhando o amor com ódio eu não consiga matar a solidão?

Durante muito tempo procurei o amor. Durante muitos anos eu sai batendo cabeça por aí, errando aqui, errando ali. Fazendo algumas pessoas sofrerem em nome de um sentimento que acabei finalmente conhecendo... e que agora preferia não ter conhecido. Deixei de lado por muitos anos, especialmente nos últimos, o melhor amor de todos: o amor próprio. Me entreguei a uma busca estúpida, de um amor incrível, que nunca vai existir. – me curvei agora um pouco, mudando de posição e sinto que minha amiga sombra do esquecimento subiu em minhas costas. Está me dizendo para esquecer o amor. Não falar mais dele.

Se estou ou não, condenado a viver com as sombras, não sei. Mas começo a me sentir à vontade com elas... – eu sorri – acho que a solidão não gostou disso. Percebi que ela descruzou os braços e agora me olha com certa preocupação. Seria seu fim, não é mesmo, maldita? A sua segurança de que eu nunca lhe abandonaria, era o temor de te perder e não ter ninguém mais para viver comigo, não é Dona Solidão? Pois agora eu talvez possa viver somente com as sombras. As mesmas sombras que você me apresentou naquela noite no hotel, há cerca de um ano. Talvez você tenha se enforcado na própria corda. Tinha medo de me perder para a felicidade, para o amor, para o prazer de viver e agora corre o risco de me perder para você mesma – rio – não é irônico Dona Solidão?

Ahhhh... – suspiro profundamente – doce ilusão. Eu sei que você ainda não vai embora Dona Solidão. Sei que as sombras ainda são suas amigas e escravas. Mas não me custa sonhar, embora sonhar tenha sido todo o meu custo. Uma outra sombra agora se ajoelhou ao meu lado, com o rosto próximo a tela do notebook. Ela levantou uma questão interessante: morrendo, seja para onde for, elas poderiam me acompanhar? Se forem as trevas o meu destino, sombras seriam capazes de sobreviver ao imenso negrume do inferno? Ou do purgatório? Ou da puta que me pariu, seja lá qual for o nome do diabo do lugar pra onde vão os suicidas?

Bom... Na verdade, minha curiosidade não chega a tanto. Sei que não vou conseguir dormir agora, mas meus olhos ardem. Quero fechá-los e fingir que tudo está bem. Vou me levantar assim que escrever o último “ponto”, ir até o frigobar, tomar um gole de água gelada com gosto de cloro, mostrar o dedo do meio para a solidão, fechar o notebook e puxar as sombras para que me cubram.

Enfim, sombras.


Textos - Contos e Prosas

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