Operário em tempo quase integral, escritor nas raras horas vagas. Escrever era a única coisa que o fazia se sentir um pouco melhor. Era quando esquecia seus erros, falhas e má sorte e entrava em um mundo de sonhos. Naquela manhã quando chegou ao seu posto de trabalho, o fez decidido a por um fim em sua vida repleta de fracassos.
Antes, porém, resolveu escrever suas últimas palavras, destinadas... a ela. Pegou seu celular e mandou a mensagem: “Te amo a cada amanhecer. A cada gota de chuva que cai sobre seu rosto em meus sonhos, onde ainda posso ser feliz. Te amo sempre! Nunca se esqueça meu amor”.
Esperou por alguns minutos a resposta. Queria receber um último “oi”. A resposta não veio...
Suspirou profundamente, retirou as luvas e arregaçou as mangas do uniforme. Olhou para o sobe e desce da lâmina de corte e sentiu um arrepio subindo pela espinha. Havia planejado tudo no dia anterior. Pediu a um colega que trocasse de lugar com ele, dando uma desculpa de não querer conversa com o encarregado que ficava ao lado de sua máquina. A verdade era que ele queria ficar longe da enfermaria.
Não seria um pequeno corte nos pulsos. Deceparia suas mãos bem acima dos pulsos e não haveria tempo para que alguém pudesse sequer pensar em salvá-lo. Desde criança, fora alertado por médicos e enfermeiros que eventualmente tratavam de seus machucados e cortes, que tinha o sangue muito ralo. Um corte mais profundo poderia deixá-lo rapidamente sem sangue. Era um caminho sem volta...
Olhou mais uma vez para o celular na esperança de ver uma resposta. Nada... Deu dois passos em direção à máquina. O colega ao lado tentou chamar sua atenção, gritando para que se afastasse. Ele ignorou.
Queria ver a morte chegando. Sonhava com ela há várias noites, tinha curiosidade de saber como era. Se realmente uma velha senhora vestida de negro, ou uma jovem mulher linda e carinhosa. Torcia para que não fosse um homem. No entanto não houve tempo para que pudesse vê-la chegando. Quando viu o próprio sangue jorrando em grande quantidade e suas mãos rolando para o outro lado da prensa, sendo completamente esmagadas por 15 toneladas de força, acabou desmaiando. Nunca pode com sangue.
...
Ouvia vozes... música... respirava lenta e calmamente.
Por um momento pensou que era mentira aquilo que aprendera nos livros de espiritismo. Diziam que os suicidas tinham um triste fim, mas ele estava bem... sentia até um certo conforto. Uma leve brisa em seu rosto contrariava o calor prometido de um inferno de arrependimentos. Antes de abrir os olhos, sorriu.
Pobre coitado...
Justamente naquele dia em que decidiu se matar, uma equipe de paramédicos, equipada inclusive com uma UTI móvel, fazia uma demonstração de primeiros socorros na grande fábrica.
A única frase que lhe veio à cabeça: - Puta que o pariu!
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