Qui Julho 29 , 2010
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A Morte como ela é

Textos - Contos e Prosas



Escrever sobre a morte é relativamente fácil pra mim. Tudo que supostamente faz parte de seu mundo parece surgir diante de meus olhos e é captado por minhas mãos, de uma maneira tão natural que é como se dela eu fosse íntimo. Talvez porque eu não a vejo como aquela velha senhora que segura uma gadanha em uma das mãos e usa uma túnica negra, com um capuz escondendo seu rosto cadavérico. A morte pode ser uma linda mulher de cabelos negros, olhos cor de mel, uma boca bem desenhada e carnuda, delicadamente esculpida em um rosto de traços perfeitos e com um corpo escultural, trajando apenas e tão somente uma capa preta e uma calcinha lilás.
Não a vejo assim movido por um desejo sexual ou algo parecido. Essa imagem sensual da morte, nada mais é que uma tentativa de encará-la de forma menos assustadora. No entanto, apesar desse tema ser o meu favorito ao escrever meus contos, devo confessar que ao surgir de verdade, próxima a mim, essa tão bela e serena morte, me deixa completamente entorpecido. Medo, respeito, admiração e sensibilidade invadem minha mente e fazem o coração bater mais lento e pesado.

A morte é algo fascinante em vários sentidos. Ela é misteriosa, é certa, decidida, implacável, em alguns momentos cruel e em alguns momentos tênue. Notável cumpridora de ordens, executa seu trabalho sem hesitar, sem se dobrar aos sentimentos, as dores, as lágrimas ou mesmo a justiça – ou ao que entendemos por justiça. Ela pode ser uma artista plástica ao projetar imagens aterrorizantes de tragédias e grandes catástrofes. Pode ser uma romancista quando escreve roteiros de sacrifícios e riscos a serem corridos por alguém a quem se ama. Mas ela pode ser terrível também, como a diretora de um espetáculo de horrores, criando cenas e interpretações demoníacas, extraindo o pior que se pode tirar da mente humana.

Mas a crueldade que citei pouco antes está no fato de que, de um jeito ou de outro, ela sempre faz questão de nos mostrar, que comparados a todo o resto que existe em nossa volta, somos apenas mais uma pequena peça. Algo que pode ser removido de todo esse cenário, assim… puf!

Essa semana eu a estou sentindo mais próxima. Ela veio visitar nosso círculo e levou alguém muito querido. Não precisou de motivos, explicações ou lógica. Simplesmente veio e cumpriu sua tarefa. Não adianta perguntarmos por que aconteceu, por que agora, por que essa pessoa. Ela não vai explicar. Ela não vai nunca ceder aos nossos desejos, sentimentos ou caprichos.

Tentei não ver, não ir até ela. Tentei não me despedir. Mas ela me levou até lá. Não quis olhar pela última vez o rosto amigo. Preferi acompanhar de longe a sua última caminhada. Fiquei isolado de todos, pois não queria ouvir ninguém, falar com ninguém e nem ao menos estar ao lado de alguém. Sentado debaixo de uma árvore e vendo por entre as pernas das pessoas ao seu redor, a imagem do caixão sendo colocado na cova, pude sentir que a morte espreitava. Ela estava ali supervisionando tudo, como se quisesse dizer a todos os presentes, no momento em que cobriram o caixão: “Vamos! Acabou! Ponto final! Vão embora pra suas casas, esqueçam tudo isso e sigam com suas vidas, até o dia em que eu vier buscá-los. Não tem mais nada aqui para se ver… Sigam!

E quando todos foram saindo, aos poucos foi surgindo a imagem daquele pequeno descampado, repleto de covas cobertas, algumas semi-cobertas e outras ainda sendo escavadas. O vento além de levantar meus cabelos e soprar sobre minhas lágrimas, trouxe também o cheiro da morte até a mim. Por um momento ergui a cabeça e olhei em direção a extremidade daquela cova. Eu queria mostrar a ela, que me restou a lembrança de um cara novo, honesto, sonhador, batalhador e cheio de planos. Isso a garota morte não pode levar. A única coisa que ela não pode nos roubar, não pode evitar, não pode vencer: nossas lembranças.

Aliás esse é mais um motivo pelo qual acho a morte fascinante. Mesmo com todo esse poder de nos levar quando bem entender, da forma como tem que ser, sem dó nem piedade, mesmo nos tirando as pessoas que amamos nas horas que julgamos inapropriadas, ela não nos impede de manter vivas essas pessoas dentro de nossa mente. E não é por incompetência. Acredito ser simplesmente um capricho dessa garota, que ao nos dar um gostinho de vitória sobre ela, faz com que não nos entreguemos tão facilmente. Afinal de contas, que graça tem vencer alguém que já não se importa em ser derrotado?

 

* Esse texto é dedicado a duas pessoas especiais: meu pai, que se foi há alguns anos, vítima de câncer, e ao amigo Joilson, que não pensou duas vezes ao se atirar na água, sem saber nadar, para tentar salvar quem ele amava. Esses dois homens, nas suas devidas proporções, têm uma grande importância em minha vida. Ambos deixaram grandes exemplos e lições a serem aprendidas: honestidade, tranqüilidade, serenidade, amor, trabalho, bom humor, dedicação e sonhos.