Não fuja mais
Esta noite você sonhará comigo. Me verá à espreita, rastejando pelas sombras de becos fétidos e escuros, seguindo o cheiro dos corpos putrefactos. Verá que eu me alimento de restos que a morte despreza. Que eu sugo o sangue já coagulado das entranhas jogadas no chão, misturadas a imundície dessa cidade negra. Eu me farto com todo tipo de bactérias, larvas e tudo aquilo que te faz sentir nojo.
Assim sou eu, ou melhor, assim sou você. Sou seu lado obscuro e recôndito. Aquilo que você tenta rejeitar. Que finge não ver. Mas sua hipocrisia é em vão, porque estou arraigado em sua alma. Não tente me repelir. Não tente me expulsar, pois sou parte de cada um de vocês. Sou parte do mundo imundo que existe por trás de toda essa maquiagem frágil e inexpressiva que vocês chamam de sociedade.
Sou seu verdadeiro ser. Quando venho à tona, sou tratado como doença. Como desvio de personalidade. E minhas atitudes são denominadas de atrocidades. Mas na realidade, o que faço é apenas revelar sua mente sem censura, sem pudor, sem vergonha.
E sigo vigiando seu sono, esperando por um desvio no tempo, no sonho, no pesadelo, na vida. Aguardo minha vez de ser o ator principal dessa sua história medíocre de vida inútil e incapaz. Quero despi-lo dessa fantasia triste. Esse "você" travestido de pessoa "comum". Quando chegar a hora vou mostrar sua verdadeira face, seus verdadeiros anseios. Irei expor seus desejos mais sujos e impróprios.
Sigo na calada da noite, sentindo o cheiro de podre, procurando pistas nas sombras, me energizando com restos e com sangue. Vou lambendo o chão por onde você pisa, me deliciando com farelos de sua pele e vampirizando sua energia enquanto você dorme.
Não fuja mais. Não se canse à toa, pois qualquer noite dessas, vamos nos encontrar frente a frente. E você não conseguirá resistir. Sentir-se-á atraído por meus olhos negros e foscos. E numa questão de segundos sugarei essa farsa que reside em seu corpo e inundarei sua alma com minha maldade, tomando aquilo que por direito é meu.
Não lute! Entregue-se a mim e seja bem-vindo ao inferno do seu verdadeiro "eu".
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