Música de uma vida de desamores
O vento...
De olhos fechados é tudo que eu preciso. É dele que vem a canção que me distrai nesse momento de luta contra minhas próprias angústias.
Meu rosto gelado... Penso na dor.
Será que vou conseguir me livrar dela, ou simplesmente arrumarei mais sofrimento para o meu corpo? Tenho medo de abrir os olhos e me jogar para frente. Sinto que posso voar, mas meus sentidos nunca foram confiáveis. E essa música uníssona em meus ouvidos e em meus cabelos...
Meus pés descalços tocam o lodo da beirada... Penso em sorrir...
Aos tolos eu peço a palavra. Porque dos sábios eu já me cansei. Quero a vida que sempre sonhei, mas não sei se aqui ela está pronta para mim. Quero o toque nas cordas de um violão, afinado pelas mãos dos meus inimigos. Pois os amigos me tocam melodias que já não ouço mais.
Minhas mãos estão frias... Penso em sumir na ventania...
Abro os olhos fitando o céu. Nublado como minha vontade de morrer. Pode passar a qualquer momento ao sopro mais forte da trégua de minha insanidade desmembrada.
Quero rasgar mais do que meu vestido... Penso em nudez de espírito...
Minhas lágrimas sorriem em meu rosto. Meus cabelos negros contrastam com meus ombros pálidos. Minha roupa já se foi. Falta me despir de meus anseios ridículos de uma vida profanamente inútil.
Abro meus braços para voar... Penso na altura desse abismo...
Baixo a cabeça e vislumbro minha própria morte. Como será meu corpo jogado em meio às pedras? Aquelas ondas vão me levar ao meu prazer? Ou será que os corvos vão devorar meus pecados impregnados em minhas retinas?
O vento mudou de direção... Penso nos laços que me prendem...
Essa nova música... São gritos de desesperança, mas querem me iludir. Se me presto ao papel de me entregar a morte, ela não cuidará de mim. Sei que prefere seguir seus desígnios do que recolher corpos de almas vazias.
Brinco de desistir por agora... Volto nua para casa...
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